Quando eu for mais velha
Quando eu era criança olhava a vida adulta como algo muito distante da minha realidade. Não entendia como meus pais, avós, tios e tias, enfim, os adultos da minha convivência, conseguiam resolver tantas coisas e se virar sozinhos. A palavra autonomia era algo muito fora do meu alcance. Era tão bom saber que alguém era responsável por mim. Podia me dedicar aos estudos, às brincadeiras, ao mundo imaginário e outras atividades compatíveis com aquela fase da vida. Para mim, confiança e segurança eram conceitos concretos. Sim, tinha minhas responsabilidades. Afinal, isso é importante para o desenvolvimento de uma criança. No entanto, minha infância foi leve, muito saudável e divertida.
Os adultos tinham suas particularidades que eu pensava que não teria quando chegasse na idade deles, pois não tinha noção de como seria o futuro. Dificilmente um adulto fazia uma traquinagem ou ria à toa. O semblante sério do dia a dia refletia as tantas demandas com as quais tinham que lidar. Era comum, nos momentos de conversas descontraídas, ouvir: “No meu tempo...” Essa expressão era carregada de saudosismo. Parecia que a parte boa da vida ficava no passado, na memória. Embora eu gostasse de ouvir as histórias dos adultos e idosos, pensava que nunca falaria isso, porque todo o tempo seria “o meu tempo”.
O tempo passou e hoje, muitas vezes, me pego falando: “No meu tempo...” Confesso que não me lembro quando essa expressão passou a fazer parte do meu vocabulário recorrente. Será que em algum momento a gente entra no modo automático e deixa de viver no presente? Por que isso acontece? Demandas do dia a dia, preocupações, distanciamento das novas gerações. Não sei a resposta, mas tenho refletido sobre o assunto. O bom é ter a percepção disso, pois é o primeiro passo para buscar o equilíbrio entre passado e presente, para que o futuro seja um presente melhor.
Algo que me ocorre neste momento é que posso falar “no meu tempo”, porque tenho uma trajetória, uma história de vida, isso é enriquecedor e faz parte da construção de quem sou hoje. O que não é saudável é, nos momentos de vulnerabilidade, usar o passado como esconderijo e instrumento de fuga.
Gosto de resgatar lembranças da infância, adolescência e juventude, inclusive para compartilhar com os mais novos, mas tenho percebido, a cada dia, que é essencial ouvir e aprender com as novas gerações.
Encerro este texto com uma lição que aprendi com meu sobrinho quando ele tinha oito anos. Estava preocupada, e conversando com ele, disse:
— Nós, adultos, vamos deixando de lado a prática de brincar. Somos sérios a maior parte do tempo.
— Tia Vanessa, se um adulto chega em casa e começa a brincar com os filhos, esquece um pouco dos problemas e, quando vê, Deus já resolveu tudo.
Chorei e reconheci:
— Você tem razão.
Meu sobrinho hoje está com dezenove anos
e eu nunca esqueci daquela lição. Sigo aprendendo.
----------------
Mudando de assunto
Por Vanessa Sene CardosoPublico um artigo por mês no meu blog – geralmente no último dia do mês. Para encerrar fevereiro, havia escolhido o tema “Quando eu ficar velha”. A ideia era falar sobre como enxergamos nosso futuro partindo do nosso olhar na infância, depois na adolescência e o que nos tornamos na vida adulta. Escrevi dois parágrafos e o texto estava ficando bem legal, mas uma situação imprevista me fez mudar de assunto.
O texto estava salvo em um pen drive e eu iria transferir o arquivo para o computador para terminar de escrever. Quando fui iniciar essa operação, quem diz que o dispositivo abria? Ainda não sei o que aconteceu, mas fiquei muito chateada, pois perdi o acesso ao meu texto. E agora? Começar do zero? Decidi mudar de assunto. E deixar o tema escolhido para março.
Você pode estar pensando: Aonde ela quer chegar? Que assunto novo é esse? A ideia é refletir como ficamos dependentes da tecnologia. Ela interfere em nossa vida desde situações corriqueiras até circunstâncias mais complexas.
Imagine ficar sem energia, sem conexão. Você já deve ter passado por isso. Quanto prejuízo no trabalho, na comunicação! Mas como fazíamos antes da existência da internet, do mundo digital e das ferramentas tecnológicas? Muitas vezes nos deparamos sem saber que solução tomar. No meu caso, precisei escrever outro texto e para isso exercitei a paciência, a criatividade e fui levada a lidar com a frustração.
Ainda estou meio inconformada em ter perdido – pelo menos por enquanto – o meu texto original, mas acredito que encontrei uma boa saída para a situação e consegui administrar o estresse.
Publico um artigo por mês no meu blog – geralmente no último dia do mês. Para encerrar fevereiro, havia escolhido o tema “Quando eu ficar velha”. A ideia era falar sobre como enxergamos nosso futuro partindo do nosso olhar na infância, depois na adolescência e o que nos tornamos na vida adulta. Escrevi dois parágrafos e o texto estava ficando bem legal, mas uma situação imprevista me fez mudar de assunto.
O texto estava salvo em um pen drive e eu iria transferir o arquivo para o computador para terminar de escrever. Quando fui iniciar essa operação, quem diz que o dispositivo abria? Ainda não sei o que aconteceu, mas fiquei muito chateada, pois perdi o acesso ao meu texto. E agora? Começar do zero? Decidi mudar de assunto. E deixar o tema escolhido para março.
Você pode estar pensando: Aonde ela quer chegar? Que assunto novo é esse? A ideia é refletir como ficamos dependentes da tecnologia. Ela interfere em nossa vida desde situações corriqueiras até circunstâncias mais complexas.
Imagine ficar sem energia, sem conexão. Você já deve ter passado por isso. Quanto prejuízo no trabalho, na comunicação! Mas como fazíamos antes da existência da internet, do mundo digital e das ferramentas tecnológicas? Muitas vezes nos deparamos sem saber que solução tomar. No meu caso, precisei escrever outro texto e para isso exercitei a paciência, a criatividade e fui levada a lidar com a frustração.
Ainda estou meio inconformada em ter perdido – pelo menos por enquanto – o meu texto original, mas acredito que encontrei uma boa saída para a situação e consegui administrar o estresse.
----------------
Quem te conhece?
Por Vanessa Sene Cardoso
Recentemente, fui convidada pelo meu marido para fotografar o trabalho dele em um evento. Ah! Para quem não sabe, ele é DJ e trabalha com som e iluminação para eventos sociais e corporativos.
Um dia antes do evento...
— Vamos comigo! Seu nome está na lista de convidados, inclusive — ele me comunicou. — É uma festa à fantasia. SOCORRO! Eu tinha menos de 24 horas para arrumar um traje.
Pensei em algumas possibilidades, até que lembrei de pedir ajuda para uma amiga, que trabalha com teatro e tem uma vasta coleção de figurinos.
— Claro que empresto! — disse com a maior prontidão.
Depois de olhar várias possibilidades no camarim, já estava quase desistindo, quando olhei uma bata no cabide. É a minha cara, pensei.
Me arrumei, fomos para o evento.
— Que tal? — perguntei para meu marido. Ele riu e disse que eu estava fantasiada de mim mesma. Só esclarecendo: hippie.
Publiquei uma foto minha no instagram. Alguns amigos comentaram, e quando falei do que se tratava o evento, todos disseram: não percebi que você estava fantasiada. Achei interessante, porque as pessoas da minha convivência conhecem meu gosto alternativo, o estilo de vestuário.
Esse episódio me fez refletir como é bom ter relacionamentos nos quais nos deixamos conhecer e nos propomos a conhecer o outro. Em tempos de tanto individualismo, quando as pessoas vivem o paradoxo da exposição nas redes sociais, ao mesmo tempo que cultivam relações superficiais e sem intimidade, vale a pena investir e aprofundar os relacionamentos em família, com amigos.
----------------
Case com o sapo
Príncipes e princesas sempre povoaram o imaginário das meninas, alimentado pelos contos de fadas passados de geração a geração. “O sapo virou príncipe”. Quem nunca ouviu essa expressão? Ela vem de uma história que, apesar de ter diferentes versões, sempre resulta em uma ação da princesa que quebra o feitiço do príncipe aprisionado no corpo do sapo.
Quero fazer uma reflexão sobre o príncipe encantado. Na pré-adolescência, as meninas começam a despertar para os sentimentos românticos, surgem as paixonites, e é comum essas emoções reais se misturarem com a ficção. O chamado amor platônico transforma o alvo do interesse em príncipe encantado. Nessa fase é comum o sentimento ficar apenas no campo do sonho e da fantasia. Com o passar do tempo, a imaginação cede lugar para os movimentos naturais das relações humanas: paquera, namoro, casamento.
No entanto, existem mulheres adultas à espera do príncipe encantado, mesmo sem admitir ou perceber essa condição. Essa expectativa tem paralisado e impedido que elas vivenciem relacionamentos reais e saudáveis, com seus momentos de desafios, tristeza, dificuldades; mas recheados de alegria e satisfação. Assim é a vida...
O sapo, de maneira geral, não é considerado um animal atraente; pelo contrário, causa repulsa, medo. E, muitas vezes, também nos mantemos afastadas quando a aparência não nos agrada. Como vamos saber se o príncipe não está escondido na carcaça do sapo, se não permitirmos a aproximação? Todos nós temos nossa versão “sapo” e nossa versão “príncipe”, ou seja, ninguém é perfeito, temos qualidades e defeitos. E a grande magia do relacionamento é aprender a conviver e apreciar o outro como ele é.
Se você está à espera do príncipe, quero deixar uma dica: dê uma chance para o sapo! Quem sabe você vai descobrir que ele guarda dentro de si algo muito melhor do que o idealizado e inatingível. Acima de tudo, dê uma chance a você mesma!
Meu sonho é ter o emprego ideal, o casamento ideal, a família ideal, e por aí vai. Qual ideal você busca? Ou melhor, como define ideal? Estamos sempre à procura dele. E, muitas vezes, ficamos à espera da condição ideal em algumas áreas de nossa vida e, sem perceber, permanecemos paralisados.
O dicionário Priberam define ideal como “aquilo que só existe na ideia ou imaginação; que reúne toda a perfeição imaginável”. Em suma: é algo impossível. Então, por que persistimos nessa busca?
O ideal é algo que já vem pronto, acabado; não precisa ser construído, não requer esforço, renúncia, batalha; talvez essa seja a razão de vivermos na expectativa de atingir esse estágio.
Quer ver um exemplo? “E foram felizes para sempre”, essa é a mensagem final de muitos filmes e livros românticos. E há quem entre em um relacionamento com essa expectativa, até cair na rotina e ver seu castelo ruir. Talvez esse seja o ponto de partida para uma condição real e verdadeira no relacionamento. E aí, sim, com a perspectiva renovada, podemos constatar que, apesar das imperfeições, é possível ser feliz para sempre, vivendo no mundo real.
Isso se aplica a todas as áreas da nossa vida. Muitas vezes, somos tão exigentes que não conseguimos sair do lugar, ou sofremos quando não alcançamos o status que consideramos ideal. Não se deixe paralisar! O fato de nunca atingirmos a perfeição nos permite avançar sempre, e não acomodar. Viu só? Estamos todos no mesmo barco!
Quando vivemos no mundo real, descobrimos que ele é o ideal,
porque, apesar das imperfeições, a realidade existe.
Por Vanessa Sene Cardoso
“Vivemos num mundo de exceções”. Você já ouviu essa afirmação? Vamos iniciar este texto abordando a necessidade das regras. Elas existem para organizar as instituições, para resguardar direitos e deveres, para o bom convívio em sociedade, para moderar as relações humanas. São apenas algumas finalidades, mas já servem para dar corpo à nossa reflexão.
O código de trânsito é um exemplo. Se não existisse, com certeza, haveria mais acidentes do que já existem hoje. E eles normalmente acontecem quando alguma regra é infringida. Mas há quem compre a exceção por meio de atos de corrupção, buscando se livrar da punição, oferecendo algo aos agentes fiscalizadores.
Assim como temos o direito de nos reunir, ouvir música, realizar eventos; temos o dever de respeitar o repouso do nosso vizinho. Em condomínios, por exemplo, depois das 22h não se pode fazer barulho. Mas se está tão divertido, porque não podemos estender a festança?! Para quem não tem consciência sobre o direito do outro, vale advertência e multa. Como dizem: é só mexer no bolso, que essa linguagem todo mundo entende.
Por que queremos fazer parte da exceção? Você já pensou nisso? Simples! Sejamos honestos: porque pensamos mais em nós mesmos do que nos outros. A gente tem muitos argumentos para justificar o desejo de ser exceção. É difícil admitir que não queremos viver sob o limite das regras. As exceções existem sim, há casos e casos. O problema é quando fazemos dela a regra.
Não façam nada por interesse pessoal ou vaidade, mas por humildade,
cada um considerando os outros superiores a si mesmo, não tendo em vista
somente os seus próprios interesses, mas também os dos outros (Filipenses
2.3-4). Essa orientação do apóstolo Paulo aponta para o nosso modelo de conduta:
JESUS.
Já estamos às portas do último mês de 2022. Não sei para você, mas para mim o ano passou num piscar de olhos. Lembro-me, como se fosse hoje, quando mostrei minha singela decoração de Natal do ano passado para minha sobrinha e ouvi o seguinte comentário:
Fiquei surpresa com a interpretação dela e respondi, de forma descontraída:
Ao mesmo tempo em que achei engraçada a observação dela, serviu de reflexão sobre o ponto de vista em relação às situações com as quais nos deparamos em nosso dia a dia. Nossa percepção do mundo, das atitudes das pessoas, das circunstâncias está baseada em nosso sistema de valores, nas crenças, no que foi ensinado para nós, no contexto em que estamos inseridos, em nosso histórico de vida. Cada um se acomoda dentro da sua caixa e, através dessa moldura, tenta assimilar o que acontece lá fora.
Só que com o passar do tempo e com as experiências, percebemos que a vida não é quadrada. No entanto, sair da nossa caixa confortável exige esforço, mas se desejamos fazer isso, a vontade é meio caminho andado. Quando isso acontece, somos enriquecidos, experimentamos liberdade e a vida se torna mais leve. Vale a pena!
O próprio Jesus nos deixou o exemplo; basta ler os evangelhos e constatar. Em Lucas 18.15-17, está escrito: Traziam-lhe também as crianças, para que as tocasse; e os discípulos, vendo, os repreendiam. Jesus, porém, chamando-as para junto de si, ordenou: Deixai vir a mim os pequeninos e não os embaraceis, porque dos tais é o reino de Deus. Em verdade vos digo: Quem não receber o reino de Deus como uma criança de maneira alguma entrará nele. Na época, as crianças não eram sequer contadas, não eram valorizadas na cultura. O Mestre, porém, tinha outro olhar sobre elas.
Tenho aprendido a usar outras lentes para enxergar o mundo ao meu redor. Observar uma situação de diferentes perspectivas não faz com que a essência perca espaço para a embalagem.
A foto que ilustra este artigo é uma planta sufocada por penduricalhos ou uma decoração de Natal alternativa? Experimente sair da caixa!
------------------
Segunda-feira, 7 horas da manhã, Adélia esperava, no ponto, o ônibus para o trabalho. Estava em cima da hora e isso lhe causava irritação, uma vez que tinha por hábito chegar adiantada pelo menos dez minutos. Ainda por cima, tinha uma fila para entrar no coletivo. Finalmente conseguiu. Que aperto! Alguém que estava um pouco atrás dela puxou assunto.
Comunicação na mediação de conflitos
Por Vanessa Sene Cardoso
— Desculpe, pastor — disse ela sem jeito.
— O que você está fazendo aí? — questionou o pastor — venha tomar um café conosco, agora você terá mais tempo para isso, pois essa é sua nova colega de trabalho.
"As palavras, tanto faladas quanto caladas, são essenciais" (Philip Yancey).
25.10.15




















Nenhum comentário:
Postar um comentário