quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Contemplação


Por
Vanessa Sene Cardoso

“Quando estou em um lugar bonito, prefiro contemplar do que fotografar”. Já ouvi muito esse comentário. Eu gosto de contemplar e registrar. Quando assistimos a algum vídeo de pontos turísticos e principalmente de cenários naturais, meu marido sempre diz: Você ia ficar empolgadíssima nesse lugar, querendo fotografar tudo. Penso que a imagem materializa a memória. Lógico que, como tudo na vida, é preciso equilíbrio.

A vida corrida dos dias de hoje, muitas vezes, tenta nos roubar o tempo e a capacidade de contemplação. Com tantas demandas, e a cabeça cheia de preocupação, fazer uma pausa para observar uma flor ou o pôr do sol parece luxo. Somos a sociedade do ativismo. Nosso valor está associado à nossa produtividade, especialmente no trabalho. Com isso, é difícil sobrar espaço na agenda para uma atividade tão banal. Esta é a essência da reflexão: contemplar deveria fazer parte da nossa rotina. Faz bem para a alma, aquieta o coração e renova a esperança. Sabe por quê? Porque quando nos deparamos com algo tão lindo como a natureza, nosso olhar se volta para o Criador.

Tenho várias plantas em casa e sempre que eu vejo uma nova flor me emociono. Isso traz muita alegria ao meu coração, não só pela beleza, mas por lembrar que Deus cuida está no controle e ele cuida dos detalhes da nossa vida.

― Por isso, digo a vocês que não se preocupem com a própria vida, quanto ao que comer ou beber; nem com o corpo, quanto ao que vestir. A vida não é mais importante do que a comida, e o corpo mais importante do que a roupa? Observem as aves do céu: não semeiam, nem colhem, nem armazenam em celeiros. Contudo, o Pai celestial de vocês as alimenta. Vocês não têm muito mais valor do que elas? Quem de vocês, por mais que se preocupe, pode acrescentar uma hora que seja à sua vida? ― Por que vocês se preocupam com roupas? Vejam como crescem os lírios do campo. Eles não trabalham nem tecem. Contudo, digo a vocês que nem Salomão, em todo o seu esplendor, vestiu‑se como um deles. Se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no fogo, não vestirá muito mais a vocês, homens de pequena fé? (Mateus 6.25-30 – NVI).

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Bendita que resplandece

 

Por Vanessa Sene Cardoso

Admiro quem tem talento para qualquer trabalho manual. Já tentei algumas atividades artesanais e descobri que, realmente, não tenho aptidão para pintura, desenho, costura, bordado, marcenaria e por aí afora… Mas sei apreciar a arte, ah, isso eu sei. Contemplar uma obra, que é resultado de mãos habilidosas e mente criativa, me toca profundamente. Faz bem para a alma e me arranca um sorriso. E a perícia do artista serve de inspiração para o meu ofício de escrever. Tanto é que hoje minha crônica é sobre uma artista que também é uma obra-prima: Bendita que resplandece.

Ela ama arte – especialmente patchwork – não apenas pela beleza do resultado, mas pelo desafio do processo. Vem a ideia; na sequência, papel e lápis para registrar o croqui. A combinação das cores e texturas dos tecidos é resultado de uma escolha apurada de quem quer produzir com qualidade. O tempo, ah, o tempo… Por mais ágeis e adestradas que sejam as mãos, a pressa não é uma boa guia. É preciso tempo – que até pode ser curto –, mas o tempo certo.

O artesanato é um instrumento de aprendizagem, desenvolvimento cognitivo, exercício da criatividade, uma linguagem para expressar pensamentos e emoções. Bendita, que, além de artista, é professora, sabe muito bem usar essa ferramenta para gerar conexões, extrair o melhor da gente e estimular relacionamentos. A arte serve de motivo para reunir, agregar, valorizar as pessoas. A jornada da criação é muito divertida com essa mestra. Por mais que exista uma forma de executar o trabalho, com ela sempre há espaço para cada um imprimir sua personalidade na peça. Já fui sua discípula. Inclusive tem uma obra que ficou estacionada. Pretendo retomar, minha amiga.

Bendita é abençoada e fonte de bênção. Quantas e quantas pessoas já foram alcançadas por sua gentileza, generosidade, atenção, cuidado, exortação. Ela consegue enxergar nas pessoas o lado direito enquanto o avesso ainda é um emaranhado de linhas. Motiva, apoia, ensina, caminha junto. Sou testemunha de tantos que passaram por sua vida, e alguns chegaram com a luz esmaecida em suas dificuldades – ou até apagada. Ela insiste, insiste até reacender a chama. Sabe por quê? Porque carrega no nome e na sua identidade a luz de Jesus. Não podia ter um nome mais apropriado que refletisse exatamente quem é: Bendita que resplandece. 

Receba essa crônica como uma forma de gratidão por sua amizade e irmandade. Um presente para quem sempre é presente na minha vida. Amo você.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Aceita um café?


Por Vanessa Sene Cardoso

Para você que, como eu, aprecia café, o que representa essa bebida? Apenas o protagonista na refeição matinal. Uma pausa no meio das atividades do dia. Um sabor marcante. Um auxílio quando precisa se manter alerta. Companhia no momento de leitura. Convite para uma boa conversa. Pausa para descanso. Gatilho para boas lembranças. Aromatizador de ambiente. Uma bebida com gosto marcante que eu não gosto. Para mim, uma xícara de café contém um pouco de tudo isso, exceto “uma bebida que eu não gosto”, porque aprecio muito. Posso dizer que faz parte das coisas boas da vida.

Se chego em uma loja, consultório ou outro ambiente que não é familiar e alguém me oferece um café, é como se dissesse: sinta-se à vontade. Quando estou vivendo um momento de estresse e um colega de trabalho me convida a uma pausa para um café, é sinal de acolhimento. Se uma amiga marca um encontro para tomar um café simboliza boa conversa, seja para diversão ou para abrir o coração. Amo ganhar café ou objetos relacionados a essa bebida, pois trata-se de um presente personalizado de alguém que me conhece bem ou, no mínimo, sabe do meu gosto.

Essa reflexão é menos sobre café e mais sobre levar a vida com leveza, generosidade, apreciando as pequenas coisas do dia a dia e fazendo diferença no ambiente em que estamos e na vida das pessoas do nosso convívio.


 

terça-feira, 30 de junho de 2026

O tempo e as amizades

Por Vanessa Sene Cardoso 

Hoje tomei café da manhã com uma amiga muito querida que está morando em outro país há quase cinco anos. Nunca perdemos o contato; nos falamos com frequência. Sempre nos mantemos atualizadas uma sobre a vida da outra. Mas já viu, né? O assunto nunca acaba. Foram três horas de conversa e não conseguimos esgotar os diversos temas do universo feminino.

Quando nos despedimos, para mim, ficou claro que mais importante do que a conversa – que foi ótima – é a presença. E esta não se restringe a estar perto fisicamente. O que nos une é a alegria de estar junto e compartilhar a vida. Deus tem me presenteado com amigas que, independentemente de tempo e espaço, são presentes. E algo muito legal é que não existe cobrança por atenção, pois nem sempre é possível estar disponível e tudo bem. Outro aspecto importante é que encontramos um lugar seguro para abrir o coração, sem julgamentos.

Um sinal de uma amizade madura e saudável é a sinceridade, transparência, verdade e liberdade de ser quem se é e, ainda assim, com defeitos e qualidades, desfrutar de aceitação. Uns puxões de orelha também são atribuição de um bom amigo. 

Poderia ficar horas discorrendo sobre amizade, e por mais que eu ame escrever, hoje prefiro guardar minhas considerações no coração. Como é bom desfrutar das amizades em tempo e fora de tempo!



sexta-feira, 29 de maio de 2026

O luto

Por Vanessa Sene Cardoso

O bebê, quando nasce, rompe com seu primeiro habitat e ingressa em um novo mundo. A mãe – que foi casa por nove meses – se acostuma, se adapta, nutre, vê seu corpo e emoções mudarem e, de repente, o ventre fica vazio. Começa uma nova relação. Ao longo da vida, vários ciclos se iniciam e se fecham. E é difícil passar por cada um deles sem ser afetado, nem que seja minimamente.

Da infância para a vida adulta, aquelas brincadeiras sem sentido, as histórias fantasiosas criadas pela nossa imaginação parecem perder a graça e a magia de uma hora para outra. A criança deixa de existir para dar lugar ao pré-adolescente, e assim sucessivamente.

Se por um lado passamos a usufruir da capacidade de abstração com mais naturalidade, por outro, tudo fica muito concreto: estudo, trabalho, contas para pagar, e outras imposições do cotidiano que fazem a vida funcionar. Autonomia e independência são conquistadas com as responsabilidades que chegam com o início da vida adulta – pelo menos deveria ser assim. Muitos resistem em iniciar esse novo ciclo, preferem prolongar o conforto de uma vida dentro do ninho. Como dói criar asas! Como dói empurrar os filhotes para o voo solo! Mas é o curso natural da vida. São ciclos que precisam ser fechados. Não tem como evitar o luto.

Com o passar do tempo, nos damos conta de quantos lutos existem na vida. Por que é tão difícil para um bebê abandonar a chupeta, a fralda? Engatinhar é mais rápido; uma vez que os primeiros passos são intercalados com quedas e falta de equilíbrio. E esse é só o começo. Os ciclos se repetem durante a vida, porém com outra roupagem, de acordo com a fase em que nos encontramos. Sair de casa, constituir família, envelhecer, perder a autonomia, encarar a morte. Por mais que essas fases possam não obedecer a ordem considerada natural, passamos por todas elas mais cedo ou mais tarde. O fio que conduz essas mudanças é o luto, pois ele se repete, muitas vezes, sem ser notado. Só se apresenta claramente quando nos deparamos com a morte de um ente querido. Talvez cada perda – pequena ou grande – ao longo da vida seja um ensaio para a última instância do luto.

Provavelmente, a gente não se dê conta dessa realidade, mas você já se percebeu com uma sensação de perda ou certa melancolia em alguns momentos? Às vezes sem discernir o motivo. Identificar perdas e lutos ao longo da nossa jornada é um passo decisivo para lidar com a dor das mudanças e receber ânimo, esperança e alegria para cada nova fase da vida. Porque, sim, a vida continua depois de cada perda e cada luto. Afinal, somos eternos. E isso nos consola e enche de esperança.

Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu: há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de matar e tempo de curar; tempo de derribar e tempo de edificar; tempo de chorar e tempo de rir; tempo de prantear e tempo de saltar de alegria; tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar; tempo de buscar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de deitar fora; tempo de rasgar e tempo de coser; tempo de estar calado e tempo de falar; tempo de amar e tempo de aborrecer; tempo de guerra e tempo de paz. Que proveito tem o trabalhador naquilo com que se afadiga? Vi o trabalho que Deus impôs aos filhos dos homens, para com ele os afligir. Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até ao fim. Eclesiastes 3.1-11

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Cansada, eu?


Por Vanessa Sene Cardoso

Fazemos parte da sociedade do cansaço. Quantas vezes por dia ou por semana, você ouve: Estou cansado. Que canseira! Aff! Uff! Garanto que vão faltar dedos para enumerar, pois essas expressões fazem parte do nosso repertório. Ou não?

E o que tem nos deixado nessa condição? Os motivos são muitos, mas arrisco a dizer que a vida corrida, a necessidade de estar o tempo todo conectado, o bombardeio de informações, a dificuldade de organização da rotina, a relutância em dizer não, a insegurança em estabelecer prioridades.

Hoje há profissionais que ajudam pessoas a lidarem com as demandas da vida moderna. As muitas orientações e soluções apresentadas para o cansaço físico, emocional, mental ajudam, mas não solucionam, não são a palavra final. A minha intenção não é esgotar o assunto ou trazer uma resposta, mas sim provocar a reflexão.

“Venham a mim todos vocês que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso. Tomem sobre vocês o meu jugo. Deixem que eu lhes ensine, pois sou manso e humilde de coração, e encontrarão descanso para a alma. Meu jugo é fácil de carregar, e o fardo que lhes dou é leve”. (Mateus 11.28-30 – NVT)



terça-feira, 24 de março de 2026

Quando eu for mais velha

 



Por Vanessa Sene Cardoso 

Quando eu era criança olhava a vida adulta como algo muito distante da minha realidade. Não entendia como meus pais, avós, tios e tias, enfim, os adultos da minha convivência, conseguiam resolver tantas coisas e se virar sozinhos. A palavra autonomia era algo muito fora do meu alcance. Era tão bom saber que alguém era responsável por mim. Podia me dedicar aos estudos, às brincadeiras, ao mundo imaginário e outras atividades compatíveis com aquela fase da vida. Para mim, confiança e segurança eram conceitos concretos. Sim, tinha minhas responsabilidades. Afinal, isso é importante para o desenvolvimento de uma criança. No entanto, minha infância foi leve, muito saudável e divertida.

Os adultos tinham suas particularidades que eu pensava que não teria quando chegasse na idade deles, pois não tinha noção de como seria o futuro. Dificilmente um adulto fazia uma traquinagem ou ria à toa. O semblante sério do dia a dia refletia as tantas demandas com as quais tinham que lidar. Era comum, nos momentos de conversas descontraídas, ouvir: “No meu tempo...” Essa expressão era carregada de saudosismo. Parecia que a parte boa da vida ficava no passado, na memória. Embora eu gostasse de ouvir as histórias dos adultos e idosos, pensava que nunca falaria isso, porque todo o tempo seria “o meu tempo”.

O tempo passou e hoje, muitas vezes, me pego falando: “No meu tempo...” Confesso que não me lembro quando essa expressão passou a fazer parte do meu vocabulário recorrente. Será que em algum momento a gente entra no modo automático e deixa de viver no presente? Por que isso acontece? Demandas do dia a dia, preocupações, distanciamento das novas gerações. Não sei a resposta, mas tenho refletido sobre o assunto. O bom é ter a percepção disso, pois é o primeiro passo para buscar o equilíbrio entre passado e presente, para que o futuro seja um presente melhor.

Algo que me ocorre neste momento é que posso falar “no meu tempo”, porque tenho uma trajetória, uma história de vida, isso é enriquecedor e faz parte da construção de quem sou hoje. O que não é saudável é, nos momentos de vulnerabilidade, usar o passado como esconderijo e instrumento de fuga.

Gosto de resgatar lembranças da infância, adolescência e juventude, inclusive para compartilhar com os mais novos, mas tenho percebido, a cada dia, que é essencial ouvir e aprender com as novas gerações. 

Encerro este texto com uma lição que aprendi com meu sobrinho quando ele tinha oito anos. Estava preocupada, e conversando com ele, disse:

— Nós, adultos, vamos deixando de lado a prática de brincar. Somos sérios a maior parte do tempo.
— Tia Vanessa, se um adulto chega em casa e começa a brincar com os filhos, esquece um pouco dos problemas e, quando vê, Deus já resolveu tudo.

 Chorei e reconheci:

— Você tem razão.

Meu sobrinho hoje está com dezenove anos e eu nunca esqueci daquela lição. Sigo aprendendo.