sexta-feira, 29 de maio de 2026

O luto

Por Vanessa Sene Cardoso

O bebê, quando nasce, rompe com seu primeiro habitat e ingressa em um novo mundo. A mãe – que foi casa por nove meses – se acostuma, se adapta, nutre, vê seu corpo e emoções mudarem e, de repente, o ventre fica vazio. Começa uma nova relação. Ao longo da vida, vários ciclos se iniciam e se fecham. E é difícil passar por cada um deles sem ser afetado, nem que seja minimamente.

Da infância para a vida adulta, aquelas brincadeiras sem sentido, as histórias fantasiosas criadas pela nossa imaginação parecem perder a graça e a magia de uma hora para outra. A criança deixa de existir para dar lugar ao pré-adolescente, e assim sucessivamente.

Se por um lado passamos a usufruir da capacidade de abstração com mais naturalidade, por outro, tudo fica muito concreto: estudo, trabalho, contas para pagar, e outras imposições do cotidiano que fazem a vida funcionar. Autonomia e independência são conquistadas com as responsabilidades que chegam com o início da vida adulta – pelo menos deveria ser assim. Muitos resistem em iniciar esse novo ciclo, preferem prolongar o conforto de uma vida dentro do ninho. Como dói criar asas! Como dói empurrar os filhotes para o voo solo! Mas é o curso natural da vida. São ciclos que precisam ser fechados. Não tem como evitar o luto.

Com o passar do tempo, nos damos conta de quantos lutos existem na vida. Por que é tão difícil para um bebê abandonar a chupeta, a fralda? Engatinhar é mais rápido; uma vez que os primeiros passos são intercalados com quedas e falta de equilíbrio. E esse é só o começo. Os ciclos se repetem durante a vida, porém com outra roupagem, de acordo com a fase em que nos encontramos. Sair de casa, constituir família, envelhecer, perder a autonomia, encarar a morte. Por mais que essas fases possam não obedecer a ordem considerada natural, passamos por todas elas mais cedo ou mais tarde. O fio que conduz essas mudanças é o luto, pois ele se repete, muitas vezes, sem ser notado. Só se apresenta claramente quando nos deparamos com a morte de um ente querido. Talvez cada perda – pequena ou grande – ao longo da vida seja um ensaio para a última instância do luto.

Provavelmente, a gente não se dê conta dessa realidade, mas você já se percebeu com uma sensação de perda ou certa melancolia em alguns momentos? Às vezes sem discernir o motivo. Identificar perdas e lutos ao longo da nossa jornada é um passo decisivo para lidar com a dor das mudanças e receber ânimo, esperança e alegria para cada nova fase da vida. Porque, sim, a vida continua depois de cada perda e cada luto. Afinal, somos eternos. E isso nos consola e enche de esperança.

Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu: há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de matar e tempo de curar; tempo de derribar e tempo de edificar; tempo de chorar e tempo de rir; tempo de prantear e tempo de saltar de alegria; tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar; tempo de buscar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de deitar fora; tempo de rasgar e tempo de coser; tempo de estar calado e tempo de falar; tempo de amar e tempo de aborrecer; tempo de guerra e tempo de paz. Que proveito tem o trabalhador naquilo com que se afadiga? Vi o trabalho que Deus impôs aos filhos dos homens, para com ele os afligir. Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até ao fim. Eclesiastes 3.1-11

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Cansada, eu?


Por Vanessa Sene Cardoso

Fazemos parte da sociedade do cansaço. Quantas vezes por dia ou por semana, você ouve: Estou cansado. Que canseira! Aff! Uff! Garanto que vão faltar dedos para enumerar, pois essas expressões fazem parte do nosso repertório. Ou não?

E o que tem nos deixado nessa condição? Os motivos são muitos, mas arrisco a dizer que a vida corrida, a necessidade de estar o tempo todo conectado, o bombardeio de informações, a dificuldade de organização da rotina, a relutância em dizer não, a insegurança em estabelecer prioridades.

Hoje há profissionais que ajudam pessoas a lidarem com as demandas da vida moderna. As muitas orientações e soluções apresentadas para o cansaço físico, emocional, mental ajudam, mas não solucionam, não são a palavra final. A minha intenção não é esgotar o assunto ou trazer uma resposta, mas sim provocar a reflexão.

“Venham a mim todos vocês que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso. Tomem sobre vocês o meu jugo. Deixem que eu lhes ensine, pois sou manso e humilde de coração, e encontrarão descanso para a alma. Meu jugo é fácil de carregar, e o fardo que lhes dou é leve”. (Mateus 11.28-30 – NVT)



terça-feira, 24 de março de 2026

Quando eu for mais velha

 



Por Vanessa Sene Cardoso 

Quando eu era criança olhava a vida adulta como algo muito distante da minha realidade. Não entendia como meus pais, avós, tios e tias, enfim, os adultos da minha convivência, conseguiam resolver tantas coisas e se virar sozinhos. A palavra autonomia era algo muito fora do meu alcance. Era tão bom saber que alguém era responsável por mim. Podia me dedicar aos estudos, às brincadeiras, ao mundo imaginário e outras atividades compatíveis com aquela fase da vida. Para mim, confiança e segurança eram conceitos concretos. Sim, tinha minhas responsabilidades. Afinal, isso é importante para o desenvolvimento de uma criança. No entanto, minha infância foi leve, muito saudável e divertida.

Os adultos tinham suas particularidades que eu pensava que não teria quando chegasse na idade deles, pois não tinha noção de como seria o futuro. Dificilmente um adulto fazia uma traquinagem ou ria à toa. O semblante sério do dia a dia refletia as tantas demandas com as quais tinham que lidar. Era comum, nos momentos de conversas descontraídas, ouvir: “No meu tempo...” Essa expressão era carregada de saudosismo. Parecia que a parte boa da vida ficava no passado, na memória. Embora eu gostasse de ouvir as histórias dos adultos e idosos, pensava que nunca falaria isso, porque todo o tempo seria “o meu tempo”.

O tempo passou e hoje, muitas vezes, me pego falando: “No meu tempo...” Confesso que não me lembro quando essa expressão passou a fazer parte do meu vocabulário recorrente. Será que em algum momento a gente entra no modo automático e deixa de viver no presente? Por que isso acontece? Demandas do dia a dia, preocupações, distanciamento das novas gerações. Não sei a resposta, mas tenho refletido sobre o assunto. O bom é ter a percepção disso, pois é o primeiro passo para buscar o equilíbrio entre passado e presente, para que o futuro seja um presente melhor.

Algo que me ocorre neste momento é que posso falar “no meu tempo”, porque tenho uma trajetória, uma história de vida, isso é enriquecedor e faz parte da construção de quem sou hoje. O que não é saudável é, nos momentos de vulnerabilidade, usar o passado como esconderijo e instrumento de fuga.

Gosto de resgatar lembranças da infância, adolescência e juventude, inclusive para compartilhar com os mais novos, mas tenho percebido, a cada dia, que é essencial ouvir e aprender com as novas gerações. 

Encerro este texto com uma lição que aprendi com meu sobrinho quando ele tinha oito anos. Estava preocupada, e conversando com ele, disse:

— Nós, adultos, vamos deixando de lado a prática de brincar. Somos sérios a maior parte do tempo.
— Tia Vanessa, se um adulto chega em casa e começa a brincar com os filhos, esquece um pouco dos problemas e, quando vê, Deus já resolveu tudo.

 Chorei e reconheci:

— Você tem razão.

Meu sobrinho hoje está com dezenove anos e eu nunca esqueci daquela lição. Sigo aprendendo.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Mudando de assunto

Por Vanessa Sene Cardoso

Publico um artigo por mês no meu blog – geralmente no último dia do mês. Para encerrar fevereiro, havia escolhido o tema “Quando eu ficar velha”. A ideia era falar sobre como enxergamos nosso futuro partindo do nosso olhar na infância, depois na adolescência e o que nos tornamos na vida adulta. Escrevi dois parágrafos e o texto estava ficando bem legal, mas uma situação imprevista me fez mudar de assunto.

O texto estava salvo em um pen drive e eu iria transferir o arquivo para o computador para terminar de escrever. Quando fui iniciar essa operação, quem diz que o dispositivo abria? Ainda não sei o que aconteceu, mas fiquei muito chateada, pois perdi o acesso ao meu texto. E agora? Começar do zero? Decidi mudar de assunto. E deixar o tema escolhido para março.

Você pode estar pensando: Aonde ela quer chegar? Que assunto novo é esse? A ideia é refletir como ficamos dependentes da tecnologia. Ela interfere em nossa vida desde situações corriqueiras até circunstâncias mais complexas.

Imagine ficar sem energia, sem conexão. Você já deve ter passado por isso. Quanto prejuízo no trabalho, na comunicação! Mas como fazíamos antes da existência da internet, do mundo digital e das ferramentas tecnológicas? Muitas vezes nos deparamos sem saber que solução tomar. No meu caso, precisei escrever outro texto e para isso exercitei a paciência, a criatividade e fui levada a lidar com a frustração.

Ainda estou meio inconformada em ter perdido – pelo menos por enquanto – o meu texto original, mas acredito que encontrei uma boa saída para a situação e consegui administrar o estresse.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Paciência


Por
Vanessa Sene Cardoso

Ao se deparar com a palavra “paciência”, o que isso provoca em você? Ela pode ter alguns sentidos de acordo com o repertório de vida, o momento em que se está vivendo, a personalidade de cada um. E aqui não estou me referindo ao significado da palavra, à sua etimologia, e sim ao conceito, ideia.

Paciência pode simbolizar:  

– Espere mais um pouco.
– Já era; está feito.
– Vamos caminhar mais uma milha.
– Perseverar até alcançar um objetivo.
– Vai demorar!

Viu só o que uma simples palavra pode evocar? Talvez você tenha outros significados para acrescentar à lista acima. No nosso dia a dia, a paciência é um atributo essencial para que a gente consiga enfrentar as adversidades, fortalecer relacionamentos, desenvolver habilidade social, cuidar das emoções.

A paciência faz parte do fruto do Espírito, conforme Gálatas: Entretanto, o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade (NVI). Se somos filhos de Deus, temos o Espírito Santo em nós e ele desenvolve o seu fruto em nossa vida. Portanto, a paciência é algo que foi implantado em nosso coração. Lembro-me de ouvir que quando oramos pedindo paciência, passamos por situações que exigem a prática dela. E é assim que crescemos.

Não é fácil exercitar a paciência. No entanto, é possível. E isso é o que basta. Que possamos fazer a escolha certa.

Meus irmãos, considerem motivo de grande alegria sempre que passarem por qualquer tipo de provação, pois sabem que, quando sua fé é provada, a perseverança tem a oportunidade de crescer. E é necessário que ela cresça, pois quando estiver plenamente desenvolvida vocês serão maduros e completos, sem que nada lhes falte (Tiago 1.2-4 – NVT).



domingo, 28 de dezembro de 2025

O novo assusta



Por
Vanessa Sene Cardoso

Como você encara o novo? Depende de que novo, do momento em que ele acontece, e da personalidade – afinal, cada um lida à sua maneira. Creio que para boa parte das pessoas, em menor ou maior escala, o novo assusta. Gostaria de refletir sobre um episódio bíblico que, no meu ponto de vista, retrata essa realidade.

Perguntou-lhe Jesus: Que queres que eu te faça? Respondeu o cego: Mestre, que eu torne a ver (Marcos 10.51). A pergunta de Jesus parece meio óbvia em se tratando da condição do seu interlocutor. A cegueira trazia muitas limitações ao homem; o privava de muitas coisas, como ver o mundo, as pessoas. Vivia na condição de mendicância, pois se encontrava impossibilitado para o trabalho.

As coisas novas, mesmo que sejam boas, trazem desconforto, pois nos acomodamos na condição em que estamos, até mesmo em situações difíceis, por incrível que pareça. Voltando a ver, o homem se tornaria independente e teria que buscar seu sustento de maneira autônoma – sem o apoio dos outros – o que demandaria esforço. Deixaria de ser alvo da atenção e piedade das pessoas. Veria o mundo de uma forma totalmente desconhecida. Teria que reaprender a se relacionar com as pessoas e com a vida de maneira geral. Será que estamos dispostos a sair da zona de conforto? A resposta do homem foi: que eu torne a ver.

Que a pergunta de Jesus nos faça refletir e que a atitude do homem nos inspire. Viva o novo! Feliz 2026!


sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Sobre a amizade



Por Vanessa Sene Cardoso

Hoje é o dia do aniversário de duas amigas incríveis. E essa data me inspirou a refletir sobre a amizade. Essa é uma forma de relacionamento que pode durar a vida toda e é fruto de uma escolha. Amigas são bálsamo para a alma. É tão bom seguir a vida ao lado delas.

Quando estamos alegres ou temos alguma conquista, queremos logo compartilhar. Se acontece algo ruim, se estamos tristes, com problemas, angustiadas, pensamos em quem? Seja para rir ou chorar; calar ou falar, lá estão elas. Quando necessitamos de conselho ou apenas de uma escuta, sabemos que podemos contar com as amigas e isso traz conforto.

Ah, com elas também compartilhamos receitas, falamos da rotina, praticamos o servir. Amiga é presença, mesmo que os encontros não possam ser frequentes. Ao longo do tempo tenho experimentado a leveza que a amizade traz. Às vezes, nem há necessidade de falar, basta um gesto, um olhar e somos compreendidas e curadas pela simples empatia. E mesmo quando discordamos, ou entramos em atrito, aprendemos com a situação, porque a essência da amizade está em quem somos e não no nosso desempenho. A lealdade é a etiqueta da amizade. Lembrando que sempre há espaço para perdão e reconciliação.

Em todo tempo ama o amigo, e na angústia se faz o irmão (Provérbios 17.17).

Lissandra e Ellen, vocês são presentes e presença de Deus na minha vida!

Feliz aniversário!