Por Vanessa Sene Cardoso
Quando eu era criança olhava a vida
adulta como algo muito distante da minha realidade. Não entendia como meus
pais, avós, tios e tias, enfim, os adultos da minha convivência, conseguiam
resolver tantas coisas e se virar sozinhos. A palavra autonomia era algo muito
fora do meu alcance. Era tão bom saber que alguém era responsável por mim.
Podia me dedicar aos estudos, às brincadeiras, ao mundo imaginário e outras
atividades compatíveis com aquela fase da vida. Para mim, confiança e segurança
eram conceitos concretos. Sim, tinha minhas responsabilidades. Afinal, isso é importante
para o desenvolvimento de uma criança. No entanto, minha infância foi leve, muito
saudável e divertida.
Os adultos tinham suas particularidades que
eu pensava que não teria quando chegasse na idade deles, pois não tinha noção
de como seria o futuro. Dificilmente um adulto fazia uma traquinagem ou ria à
toa. O semblante sério do dia a dia refletia as tantas demandas com as quais
tinham que lidar. Era comum, nos momentos de conversas descontraídas, ouvir:
“No meu tempo...” Essa expressão era carregada de saudosismo. Parecia que a
parte boa da vida ficava no passado, na memória. Embora eu gostasse de ouvir as
histórias dos adultos e idosos, pensava que nunca falaria isso, porque todo o
tempo seria “o meu tempo”.
O tempo passou e hoje, muitas vezes, me
pego falando: “No meu tempo...” Confesso que não me lembro quando essa
expressão passou a fazer parte do meu vocabulário recorrente. Será que em algum
momento a gente entra no modo automático e deixa de viver no presente? Por que
isso acontece? Demandas do dia a dia, preocupações, distanciamento das novas
gerações. Não sei a resposta, mas tenho refletido sobre o assunto. O bom é ter
a percepção disso, pois é o primeiro passo para buscar o equilíbrio entre
passado e presente, para que o futuro seja um presente melhor.
Algo que me ocorre neste momento é que
posso falar “no meu tempo”, porque tenho uma trajetória, uma história de vida, isso é enriquecedor e faz parte da construção de quem sou hoje. O que não é
saudável é, nos momentos de vulnerabilidade, usar o passado como esconderijo e
instrumento de fuga.
Gosto de resgatar lembranças da
infância, adolescência e juventude, inclusive para compartilhar com os mais
novos, mas tenho percebido, a cada dia, que é essencial ouvir e aprender com as
novas gerações.
Encerro este texto com uma lição que
aprendi com meu sobrinho quando ele tinha oito anos. Estava preocupada, e
conversando com ele, disse:
— Nós, adultos, vamos deixando de lado a prática de brincar. Somos
sérios a maior parte do tempo.
— Tia Vanessa, se um adulto chega em casa e começa a brincar com os
filhos, esquece um pouco dos problemas e, quando vê, Deus já resolveu tudo.
Chorei e reconheci:
— Você tem razão.
Meu sobrinho hoje está com dezenove anos
e eu nunca esqueci daquela lição. Sigo aprendendo.