Por Vanessa Sene Cardoso
O bebê, quando nasce, rompe com seu primeiro habitat e ingressa em um novo mundo. A mãe – que foi casa por nove meses – se acostuma, se adapta, nutre, vê seu corpo e emoções mudarem e, de repente, o ventre fica vazio. Começa uma nova relação. Ao longo da vida, vários ciclos se iniciam e se fecham. E é difícil passar por cada um deles sem ser afetado, nem que seja minimamente.
Da infância para a vida adulta, aquelas brincadeiras sem sentido, as histórias fantasiosas criadas pela nossa imaginação parecem perder a graça e a magia de uma hora para outra. A criança deixa de existir para dar lugar ao pré-adolescente, e assim sucessivamente.
Se por um lado passamos a usufruir da capacidade de abstração com mais naturalidade, por outro, tudo fica muito concreto: estudo, trabalho, contas para pagar, e outras imposições do cotidiano que fazem a vida funcionar. Autonomia e independência são conquistadas com as responsabilidades que chegam com o início da vida adulta – pelo menos deveria ser assim. Muitos resistem em iniciar esse novo ciclo, preferem prolongar o conforto de uma vida dentro do ninho. Como dói criar asas! Como dói empurrar os filhotes para o voo solo! Mas é o curso natural da vida. São ciclos que precisam ser fechados. Não tem como evitar o luto.
Com o passar do tempo, nos damos conta de quantos lutos existem na vida. Por que é tão difícil para um bebê abandonar a chupeta, a fralda? Engatinhar é mais rápido; uma vez que os primeiros passos são intercalados com quedas e falta de equilíbrio. E esse é só o começo. Os ciclos se repetem durante a vida, porém com outra roupagem, de acordo com a fase em que nos encontramos. Sair de casa, constituir família, envelhecer, perder a autonomia, encarar a morte. Por mais que essas fases possam não obedecer a ordem considerada natural, passamos por todas elas mais cedo ou mais tarde. O fio que conduz essas mudanças é o luto, pois ele se repete, muitas vezes, sem ser notado. Só se apresenta claramente quando nos deparamos com a morte de um ente querido. Talvez cada perda – pequena ou grande – ao longo da vida seja um ensaio para a última instância do luto.
Provavelmente, a gente não se dê conta dessa realidade, mas você já se percebeu com uma sensação de perda ou certa melancolia em alguns momentos? Às vezes sem discernir o motivo. Identificar perdas e lutos ao longo da nossa jornada é um passo decisivo para lidar com a dor das mudanças e receber ânimo, esperança e alegria para cada nova fase da vida. Porque, sim, a vida continua depois de cada perda e cada luto. Afinal, somos eternos. E isso nos consola e enche de esperança.
Tudo tem o seu tempo
determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu: há tempo de nascer
e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou; tempo
de matar e tempo de curar; tempo de derribar e tempo de edificar; tempo de
chorar e tempo de rir; tempo de prantear e tempo de saltar de alegria; tempo de
espalhar pedras e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar e tempo de
afastar-se de abraçar; tempo de buscar e tempo de perder; tempo de guardar e
tempo de deitar fora; tempo de rasgar e tempo de coser; tempo de estar calado e
tempo de falar; tempo de amar e tempo de aborrecer; tempo de guerra e tempo de
paz. Que proveito tem o trabalhador naquilo com que se afadiga? Vi o trabalho
que Deus impôs aos filhos dos homens, para com ele os afligir. Tudo fez Deus
formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade no coração do homem, sem
que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até ao fim. Eclesiastes 3.1-11


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