sábado, 2 de setembro de 2017

Uma história real





Por Vanessa Sene Cardoso

Deus não só ouve as orações, como faz infinitamente mais do que pedimos ou pensamos, segundo o seu poder que opera em nós. 

“Pai, criei minha filha aos teus pés e a quero de volta”, essa era a oração fervorosa de Isaura, em uma das muitas madrugadas em que, de joelhos, esperava a jovem chegar em casa. Foram longos anos aguardando a resposta dessa oração.

Convido você a acompanhar a trajetória da filha de Isaura. Ela passou a primeira infância em Pirapozinho, interior de São Paulo. Era feliz. Os pais, cristãos, transmitiam pelo testemunho e pelos ensinamentos, a sua fé aos filhos. Realizavam diariamente o culto doméstico, o que deixou marcas profundas na vida da filha. Algum tempo depois mudaram-se para Londrina. Eram tempos de guerra. A família frequentava a Igreja Presbiteriana Independente que, na época, era pastoreada pelo Rev. Jonas Dias Martins. A filha de Isaura foi batizada por ele e muito influenciada por seus ensinamentos. Durante a infância e adolescência foi muito envolvida na Igreja, com a mocidade, visitando as famílias e os lares necessitados. Aos 18 anos recebeu Jesus como Salvador e Senhor e fez a pública profissão de fé.

Pouco depois decidiu ir para São Paulo. Tinha muitos sonhos. Começou a estudar e logo arrumou um emprego. Aquela nova vida afastou-a de Deus. Ingressou na faculdade e começou a prosperar na área profissional, tendo um salário que proporcionou a ida de seus pais para a capital paulista. Por outro lado tinha uma conduta desregrada, com noitadas, uso de drogas, relacionamentos com vários homens. Chegou a se casar, mas pouco tempo depois veio o divórcio. Durante esse período, Deus usou algumas formas para falar com a jovem, mas ela estava resistente. Depois de um tempo voltou a frequentar a igreja, porém manteve uma vida dupla. Passou a fazer uma escola bíblica, mas somente dois anos depois teve um reencontro com Deus que mudou o curso de sua vida. Deus respondeu a oração de Isaura e resgatou sua filha, Delci Esteves dos Santos.

Ao final do curso, Delci participou de um seminário de missões. Perguntou ao diretor da Missão Antioquia, Pr. Jonathan Ferreira dos Santos, se havia algo que uma mulher de 37 anos, divorciada e sem filhos poderia fazer pela obra missionária. A reposta veio por meio de uma pergunta:

- Você se lembra de quantos anos Moisés tinha quando Deus o chamou? 
- Sim, pastor, 80 anos.
- Você tem menos da metade disso e, portanto, para mim, está qualificada!
           
Em 1980 começou a trabalhar como voluntária, duas noites por semana, na Missão Antioquia. Mas com o passar do tempo foi desafiada a abandonar o bom emprego de muitos anos, sua carreira sólida e o ótimo salário, para se dedicar tempo integral. Vendeu o apartamento, e apesar de ter recebido do chefe a proposta de salário dobrado, não aceitou. Foi viver na sede da Missão, onde atuava como secretária, cuidava da parte administrativa, e ainda participava da escala da limpeza e outras atividades. Detalhe: não recebia honorários por isso. Era uma vida em comunidade, sem luxo, com pouca privacidade, uma ótima oportunidade para ter o caráter aperfeiçoado. Não foram poucas vezes que questionou a Deus e pensou em desistir. De temperamento forte e independente, aprendeu a duras penas, depender de Deus e buscar, em oração, a direção nas decisões. Quando a Missão Antioquia inaugurou o Vale da Bênção em Araçariguama/SP, teve que ficar alojada por alguns anos em uma barraca. Tudo isso fazia parte do treinamento prático para o futuro que o Pai lhe havia reservado. Logo em seguida foi enviada para representar a Missão na Inglaterra onde permaneceu por quatro anos até retornar ao Brasil para organizar o congresso da COMIBAM – Comissão Missionária Ibero-Americana. Durante o evento foi desafiada a ir para Moçambique, onde precisavam de missionários que falassem português. Deus confirmou para Delci que a queria na África. Em 12 de junho de 1989 ela embarcou. A princípio atuava como professora de escola bíblica para treinamento de obreiros e pastores.

Moçambique estava em guerra. A situação era triste. Muitas crianças órfãs viviam pelas ruas, expostas a todo tipo de atrocidades. Apesar de nunca ter se interessado por crianças, Delci foi tocada por Deus - ao ver a cena de um garoto dormindo na calçada - e teve seu olhar voltado para elas, às quais começou a oferecer leite e pão, tendo uma árvore como ponto de encontro semanal para ensinar sobre Jesus. A cada sábado chegavam mais crianças. Delci doava metade do seu sustento para alimentar os pequenos. Mas a situação estava ficando difícil.

Ela orou para que o Senhor desse um local para abrigar aquelas crianças. Deus abriu as portas, e a missionária recebeu a quantia exata para comprar uma casa, reformá-la e concretizar o processo de registro da instituição. Nessa época já contava com o apoio de Alfredo Banzima, um dos primeiros frutos do seu trabalho, como professora de escola bíblica. Já instalados na sede do projeto, certo dia, ao observar as crianças chegando em fila, as menores nas costas das maiores, exclamou: “Parecem formigas!” E Deus a fez lembrar de Provérbios 30.25: A formiga é um povo indefeso, que, no verão, prepara sua comida. O Espírito Santo lhe disse: “Quem vai preparar o inverno dessas crianças?” Delci, prontamente, respondeu: “Deus, estou aqui para isso”. Assim nasceu a Casa das Formigas – centro de apoio à criança, inaugurada em 21 de fevereiro de 1991. A instituição chegou a atender 500 crianças em tempo parcial e algumas internas, oferecendo assistência escolar, alimentar, de saúde, bem como ensino da Palavra de Deus. Muitos já se formaram no ensino superior, constituíram família e, atualmente, a Casa das Formigas tem na sua diretoria Simione e Graciete Mate, frutos do seu trabalho missionário.

Isaura dizia à filha que só retornasse ao Brasil quando Deus ordenasse. Delci queria morrer na África, pois se considerava uma “nativa”. Mas os planos de Deus eram outros. Em 25 de abril de 2016, nossa irmã, já doente, retornou ao Brasil para receber os cuidados de que necessitava. Veio para o Lar Maria Tereza Vieira, em Londrina, em dezembro, onde comemorou seus 79 anos, e duas semanas depois do aniversário, no dia 18 de janeiro de 2017, completou sua carreira na terra, como disse o apóstolo Paulo. Foi para a casa do Pai.

Delci deixou marcas na vida de muitas pessoas. Sua história está registrada no livro “Deus sabe o que faz”, publicado pela Missão Antioquia em 2014, e disponível na Livraria, no Espaço Esperança. A biografia foi dedicada à sua mãe, que por toda vida orou para que Delci fosse missionária.

Vale a pena conhecer mais a fundo o testemunho de nossa querida Delci que decidiu viver para Cristo e seguir o conselho da mãe: “Assim, obedecei suas ordens sem discutir”.

Deus fez infinitamente mais, Isaura.


domingo, 2 de abril de 2017

Sobre música...



Por Vanessa Sene Cardoso

Eu gosto de música, não conheço alguém que não goste. Talvez uns apreciem mais, outros, menos; uns vivem dela, outros a utilizam como meio de expressão. Quem não gosta não tem como fugir, pois ela está presente em toda parte. Hoje esse é o tema da minha reflexão.

A música é um excelente instrumento a serviço da razão. Por meio dela fazem-se críticas, protestos, manifestam-se opiniões. Como exemplo, temos a ditadura militar no Brasil. O regime não conseguiu calar os poetas que, por meio da música engajada, lutaram e enfrentaram a censura nas décadas de 60 e 70. Mas não podemos ignorar que a música é uma forma de expressar emoção, tocar sentimentos e, para isso, muitas vezes, prescinde das palavras, bastam ritmos, melodias, sons. Ela tem poder de transcender o mundo das ideias, a força da razão.

Os gemidos de lamento dos negros escravos na América, no século XVIII, projetavam toda dor, sofrimento e revolta. Talvez as palavras fossem insuficientes para expressar o que sentiam. Esses lamentos deram origem a um dos estilos musicais muito apreciados, o negro spiritual.

Penso que há momentos que temos que deixar de ser escravos da razão ou limitados por ela para experimentar algo profundo e desconhecido, sem medo! A música tem a virtude de tocar a alma das pessoas independentemente da idade, da raça, do gênero, da escolaridade, da nacionalidade, dos níveis cultural e intelectual. A razão que deveria nos libertar dos preconceitos, muitas vezes nos induz a eles, pois ela é influenciada por informações, conhecimentos adquiridos, histórico de vida, filosofias e por tudo isso, às vezes, bloqueia a emoção.

Razão e emoção se completam. Que tal, razão, dar um espaço para a emoção fluir?


Música: razão + emoção

quarta-feira, 8 de março de 2017

Quero ser como Maria


Por Vanessa Sene Cardoso

“Sede imitadores meus e observai os que andam segundo o modelo que tendes em nós” (Filipenses 3.17). Lendo a Bíblia encontramos vários exemplos de homens e mulheres que podemos seguir, mas hoje a nossa conversa é sobre as mulheres. Vamos relembrar de algumas?

Bom, comecemos por Eva. Que privilégio ser a primeira mulher com a missão importantíssima de auxiliar Adão a governar a terra. E Sara?! Experimentou o milagre de conceber o filho da promessa na velhice. Raabe, a cananita, teve atuação relevante quando os judeus conquistaram a terra prometida. Mas ela não era uma prostituta?! Pois é, mas essa mulher de “reputação duvidosa” tem lugar de destaque, faz parte da genealogia de Jesus. Temos Rute, a moabita, que pela cultura da época seria rejeitada no meio do povo de Israel, mas foi presenteada por Deus com um resgatador, seu marido, que a colocou em posição de honra. E essa estrangeira também foi incluída na árvore genealógica de Jesus. Ester é outro exemplo: salvou o seu povo de ser exterminado. Essas são apenas algumas mulheres e nem chegamos ao Novo Testamento!

Não poderíamos deixar de destacar Maria, mulher escolhida por Deus, para dar à luz a Jesus, nosso Salvador. Ela foi uma serva por meio da qual Deus se tornou humano. Realmente foi privilegiada! No Novo Testamento temos vários outros exemplos: Marta e Maria, irmãs de Lázaro, amigas de Jesus; Dorcas que era “notável pelas boas obras e esmolas que fazia” (Atos 9.36). Ela era muito amada e as mulheres com quem convivia sentiram tanto a sua morte que Deus, por meio do apóstolo Pedro, a ressuscitou. Os exemplos não param por aí...

A história continua sendo escrita: “Vocês mesmos são a nossa carta, escrita no nosso coração, para ser conhecida e lida por todos. Sim, é claro que vocês são uma carta escrita pelo próprio Cristo... Não foi escrita com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo” (2 Coríntios 3.2-3 - NTLH). Olhando as mulheres da Bíblia, aprendemos com elas, mas são realidades que, às vezes, parecem um pouco distantes de nós. E hoje, no mundo em que vivemos, temos a quem imitar? Exercite a sua memória novamente! Pense em alguma mulher que você conhece. Creio que a resposta é sim. Há pessoas que são verdadeiras cartas vivas. É sobre uma delas que eu quero compartilhar.

A pequena Maria nasceu em 18 de abril de 1915, no interior de São Paulo. Era de uma família portuguesa e muito religiosa. Como grande parte das moças do início do século XX era prendada e foi preparada para ser esposa e mãe. Aos 19 anos casou-se. Com ela levou algumas imagens de quem era devota. Seu marido era cristão, e por meio do testemunho dele teve um encontro pessoal com Jesus. A partir de então começou sua caminhada na fé. Deus a abençoou com uma família numerosa. Teve quatro filhos e seis filhas, o primeiro morreu com poucos meses de vida, o que lhe trouxe muita tristeza e dor. Também passou por dificuldades financeiras, o marido foi perseguido e ameaçado no trabalho. Em todos os momentos, porém, não se desgarrou de Jesus.

A família foi aumentando, tornou-se a vó Maria. A vida pregava-lhe mais uma peça, seu companheiro ficou muito doente e faleceu. Começava uma nova etapa, mas ela sabia onde se derramar nos momentos de fragilidade e, ao mesmo tempo, encontrar forças para sua jornada: aos pés da cruz e nos braços do Pai. Entre tantos desafios que Deus tinha para essa filha, um deles se apresentou quando já estava com mais de 70 anos. Maria havia morado em várias cidades, talvez mais de 30. A maior parte no Paraná. Mas Deus a chamou para um local distante, mudou-se para o Mato Grosso do Sul. Lá abriu a sua casa para receber irmãos e irmãs na fé, e Deus foi acrescentando os que iam sendo salvos. Nasceu uma igreja.

Maria teve 21 netos e mais de 30 bisnetos. A partir dos 80 anos, quando lhe perguntavam como era ter aquela idade, dizia: “tenho canseira, mas não enfado”, numa alusão ao Salmo 90.10. Suas marcas eram a alegria, serenidade com que enfrentava as diversas situações da vida, sabedoria conquistada ao longo dos anos na presença de Deus, doçura, simplicidade. Era uma intercessora, amava sem esperar nada em troca porque sabia quem poderia supri-la. Em março de 2011, pouco antes de completar 96 anos, completou a carreira que lhe estava proposta, com perseverança sempre olhando firmemente para o autor e consumador da sua fé (Hebreus 12). Com certeza recebeu a coroa! 

Maria é minha avó, vi nela as marcas de Jesus, tenho lido essa carta viva. Posso dizer com toda convicção que ela é digna de ser imitada. Sua vida foi e é uma inspiração. “A quem honra, honra” (Romanos 13.7). 

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Preconceituoso, eu?!




Por Vanessa Sene Cardoso

Você se considera preconceituoso? A resposta politicamente correta é não. Mas se usar de honestidade, ainda que seja consigo mesmo, talvez admita um certo conceito pré-estabelecido. Veja bem, não se trata de preconceito.

Convido você a bisbilhotar conversas de algumas pessoas. O que acha?

— Imagina! A vida dos outros não me desperta curiosidade.

Neste caso não tem problema, pois são apenas personagens fictícios e “nada” tem a ver com a realidade. Vamos!  

— Não é do meu feitio, mas já que você insiste...

No ônibus

Segunda-feira, 7 horas da manhã, Adélia esperava, no ponto, o ônibus para o trabalho. Estava em cima da hora e isso lhe causava irritação, uma vez que tinha por hábito chegar adiantada pelo menos dez minutos. Ainda por cima, tinha uma fila para entrar no coletivo. Finalmente conseguiu. Que aperto! Alguém que estava um pouco atrás dela puxou assunto.

— Adélia, tudo bem?
— Oi, Sílvia.
— Menina, você sabe o motivo da fila para entrar no ônibus?
— Ah! É que aquela moça gordinha ali ficou entalada na roleta.
— Sério?
— A vida de uma pessoa gorda é tão complicada, né?! Devia tomar vergonha e fazer um regime.
— Não é tão fácil. Eu já fui obesa, fiz tudo quanto é tipo de regime e não consegui perder peso. A solução para o meu caso foi a cirurgia de redução do estômago.

Adélia ficou sem resposta e as duas seguiram sem trocar mais nenhuma palavra até a parada final.

Na praça de alimentação do shopping

Era um sábado à tarde e depois de saírem do cinema, Márcia e Dora decidiram tomar um lanche.

— Quanta gente, Dora!
— É mesmo. Estou vendo uma mesa ali.

As duas se acomodaram. E enquanto lanchavam, observavam o movimento. Pessoas bem vestidas, aparentando boa condição financeira, logo renderam comentários.

— Sabe Márcia, eu vejo essas pessoas passeando aqui e penso: “quanta futilidade!”
— Por quê?
— Muitas delas não sabem o que é lutar na vida. Está vendo aquela moça de verde ali? Aquela toda arrumada, cheia de joias, roupa de marca, e óculos de sol - aliás não sei porque usar óculos de sol em ambiente fechado - ela nem olhou para a mulher que está recolhendo o lixo ao lado da mesa dela. Quanta arrogância!
— Mas a mulher da limpeza falou com ela?
     — Não vi.
     — Por que o comentário então?
     — Sabe porque esse tipo de atitude me incomoda, Márcia? É que eu nasci numa família pobre, perdi meus pais quando era adolescente, tive que batalhar muito para estudar, conseguir um emprego e ainda hoje, luto com dificuldade. Quando você passa por privações, fica mais aberta e sem preconceitos. Por isso quando eu vejo pessoas que nunca precisaram lutar por nada, receberam tudo de bandeja, e ainda ignoram os outros, eu fico inconformada.
     — Realmente algumas pessoas se acham melhores que as outras, mas isso não necessariamente tem a ver com condição financeira. Se não me engano, aquela moça de verde é uma amiga da minha chefe e ela tem um problema de visão, é quase cega. Neste caso a sua indignação não faz sentido, Dora.               

Depois do comentário de Márcia, a conversa acabou e as duas terminaram o lanche observando em silêncio o movimento na praça de alimentação.

Na fila do banco

Era segunda-feira, quase meio-dia, Carlos e Roberto se encontraram na fila do banco.

     — Cara, que movimento! Carlos iniciou a conversa.
     — É verdade. Ainda por cima não entendo por que os idosos costumam vir retirar a aposentadoria bem nesse horário. Eles têm tempo de sobra e a gente apenas o horário de almoço para vir ao banco. Eu fico irritado, desabafou Roberto.

Um pouco mais à frente, na fila, havia dois rapazes falando alto, rindo, pareciam nem se incomodar com a demora. Estavam se divertindo. Um deles era alto, forte, usava uma camiseta regata branca exibindo os músculos; o outro era franzino, com trejeitos efeminados.

Roberto olhou para os rapazes e disse a Carlos:

     — Olha só o jeitinho daqueles dois, que pouca vergonha!
     — Ué, aquele de branco não é o seu primo? Aquele que indicou você para esta empresa em que está trabalhando?

Roberto não tinha percebido que era o seu primo um dos rapazes. Ficou desconcertado, inventou uma desculpa, disse que acabava de se lembrar de um compromisso. Quando ia saindo ouviu alguém lhe chamar:

     — Ei, primo.
Roberto, meio sem jeito, se aproximou do rapaz na fila.
     — Desistiu de esperar?
     — Lembrei que tenho um compromisso. Vou deixar para descontar o cheque depois.
     — Se quiser eu desconto pra você e deixo lá na empresa. Aliás, como vai o novo emprego?

Na porta do bar

Gil e Marcelo haviam combinado de encontrar Valmir na porta do bar onde tomariam alguma coisa antes de ir pra balada. Enquanto aguardavam o parceiro, observavam a igreja do outro lado da rua, bem em frente ao bar.

      — Gil, eu acho esse povo tão bitolado, fundamentalista. Eu não entro em igreja por nada neste mundo.
      — Muitos evangélicos são mesmo alienados, se acham donos da verdade, mas alguns são “gente boa”, como a minha avó. Ela nunca condenou meu estilo de vida.
      — Eu não gosto de crente. Sou favorável a leis que ponham um freio nessa gente preconceituosa, afinal de contas liberdade de expressão é válida apenas para quem sabe usar.
      — Em parte concordo com você. Mas quem é capaz de determinar o “bom uso” da liberdade de expressão? Será que existe um legislador ou juiz totalmente imparcial para isso? Muitos usam o conceito de liberdade de expressão para legitimar o preconceito seja de que lado for.

Gil e Marcelo foram interrompidos abruptamente por Valmir que se aproximou ofegante.

       — Está tendo uma troca de tiros entre polícia e assaltantes ali na esquina. Levei um tiro de raspão. A coisa está feia. Vamos entrar no bar.
       — Aqui não — disse o segurança barrando a entrada dos rapazes — não queremos confusão.

Apavorados, atravessaram a rua correndo e entraram na primeira porta aberta que encontraram.

       — O que aconteceu?  —  perguntou um homem grisalho e sorridente no saguão da igreja.
       — Está tendo uma perseguição policial aí na rua. Meu amigo levou um tiro de raspão, disse Marcelo apontando para a perna de Valmir.
       — Entrem e tomem um chazinho para acalmar – disse o senhor – quanto ao seu amigo, vamos cuidar do ferimento.

E aí, o que achou da vida alheia?

A questão é que nos colocamos como padrão e olhamos para os outros através dessa lente. Será que ela não é uma trave? (Mateus 7.1-5). Jesus é o modelo para os que são dele, sendo assim, devemos distinguir o comportamento, da pessoa. Posso não concordar com o outro, mas não preciso rejeitá-lo por isso. Vale sempre lembrar que a função de julgar não é nossa e por isso somos péssimos nesse ofício. 

sábado, 31 de dezembro de 2016

O que você espera?




Por Vanessa Sene Cardoso

Nos últimos dias tenho lido várias mensagens desejando saúde, paz, alegria, sucesso, prosperidade, realizações no ano novo. Uma amiga recomenda substituir as promessas pela pressa em ser feliz. Outro afirma que não adianta apenas ter tudo novo, sem um coração novo. Um amigo decidiu não mais se “(es)forçar a participar ou promover grandes celebrações, mas comemorar as pequenas vitórias do dia a dia”. Há quem não dê a menor bola para a “virada do ano”, afinal é uma data como outra qualquer, ou seja, é só virar a folhinha do calendário; e, por falar nisso, é bom não esquecer de trocar o calendário também.

As mensagens são bonitas. Embora se repitam a cada ano, são válidas, e acharíamos estranho se não fossem enviadas, compartilhadas. Afinal, culturalmente ou tradicionalmente, mesmo que muitos insistam em ignorar, a virada do ano é um marco, não pela data em si, 1 de janeiro, poderia ser 4 de maio, 7 de julho, 13 de outubro... Precisamos desse marco simbólico, nem que seja para jogar o calendário antigo fora, desfrutar uma semana de férias coletivas no trabalho, substituir a agenda. Dê a si mesmo uma oportunidade de pensar em coisas novas, fazer planos, nem que seja arrumar aquela gaveta que, há séculos, permanece intacta. A sensação é tão boa! Se você não é idealista, seja realista, mas não se deixe vencer pelo pessimismo (se bem que o pessimismo crê na mudança, mesmo que para pior, uma pena!), menos ainda pela indiferença, esta sim uma inimiga a ser vencida. Que tal colocar como meta vencer a indiferença? Se esse não é o seu caso, faça planos! Mesmo que, ao final do próximo ano, eles não tenham sido executados. Não importa! Insista! Ou, então, mude!

Quero dizer ainda, que concordo com o meu amigo que mencionei acima, prefiro comemorar todos os dias as vitórias alcançadas; as tristezas... também prefiro sofrê-las no momento, para não acumular. Tenho procurado aplicar em minha vida a recomendação do meu grande amigo Jesus: “Não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio mal” (Mateus 6.34). Confesso que não é fácil!

Não deixe que a preocupação com o amanhã faça parte dos seus planos para o futuro. Permita que sua alma descanse em Deus que é o Criador e dono do tempo. Ele está no controle de tudo e seus planos são perfeitos. Se você está em dúvida quanto ao que esperar ou planejar para os dias que virão, peça direção ao Espírito Santo.

Eu não pretendia escrever nada neste último dia do ano, mas quem nunca se “rendeu” a um clichê?!

Feliz 2017!

“Agora vou fazer uma coisa nova, que logo vai acontecer, e, de repente, vocês a verão...” (Isaías 43.19 - NTLH).

sábado, 12 de novembro de 2016

Nada de esteira rolante



Por Vanessa Sene Cardoso

Quando você se depara com uma situação que lhe causa medo, como reage? É comum pedirmos para Deus tirar o nosso temor, e ele pode e faz isso, muitas vezes, instantaneamente. Penso que existe uma forma mais difícil, porém educativa, de lidar com essa condição da alma: enfrentar o que nos provoca medo. Quando nos dispomos a isso, logo ele desaparece. Esse, no entanto, é o X da questão. Enfrentar é como atravessar a porta sem saber o que tem do lado de dentro, (pior é o que imaginamos ter do lado de dentro, que nem sempre corresponde à realidade). Procurando o fio da meada encontramos o que precede o ato de enfrentar: a decisão de enfrentar. Não me refiro aqui a situações externas em que o medo funciona como um mecanismo de defesa ou proteção, como num assalto a mão armada, por exemplo.

Situações difíceis pelas quais já passamos e que nos causaram sofrimento; enfermidades; violência; perdas... Poderíamos enumerar vários fatores desencadeadores do medo. Entre tantos motivos, gostaria de destacar um que, se analisarmos bem, vamos perceber que pode ser a raiz de muitos outros: o desconhecido. Temos as nossas zonas de conforto. Pare e pense em uma delas. Vamos exercitar a imaginação:

Suponhamos que o que lhe causa medo seja mudar de emprego, algo que aguardou por tanto tempo. Finalmente a oportunidade aparece e você toma a decisão de enfrentar o desafio. A proposta de trabalho é boa, mas você não domina o serviço. No começo tudo é novo, os colegas lhe tratam com atenção, auxiliando em suas tarefas, o chefe pega leve nas cobranças e por aí afora. Mas depois de um tempo a “lua de mel” termina, tudo cai na rotina. E você se depara com as dificuldades: sente-se inseguro por não dominar as tarefas, tem que lidar com seus erros, começa a conhecer melhor os colegas, aparecem os primeiros sinais de conflitos. Um pensamento pode rondar a sua mente: “Demorei tanto para tomar coragem e mudar de emprego; deixei a minha zona de conforto, dei o primeiro passo, mas as coisas não fluíram como eu imaginava. Acho que tomei a decisão errada. Fui precipitado!”

Sair de uma condição confortável não é nada fácil. Damos um passo para fora da zona de conforto, e, muitas vezes, esperamos encontrar uma esteira rolante - afinal o mais difícil já foi feito - mas nos deparamos com uma escada. O fato é que subimos um degrau de cada vez, por isso é preciso paciência; a subida requer um pouco de esforço, o que, às vezes, provoca dor, por isso é preciso perseverança e foco; nem sempre enxergamos o que há lá em cima, por isso é preciso confiança; ao chegarmos ao topo, encontramos um degrau mais largo, uma espécie de “platô” (Ufa! Tempo de descanso!), mas descobrimos que logo vem outro lance de escada.

Podemos comparar essa escada ao crescimento. Deus quer que seus filhos amadureçam emocionalmente, nos relacionamentos, em todas as áreas da vida. Enfrentar os medos faz parte da nossa jornada rumo à maturidade. Como é bom saber que, em Cristo, temos capacidade para encarar toda e qualquer circunstância. O medo pode desaparecer de imediato, ou quando enfrentamos as situações, não importa a forma, e sim o propósito do nosso Pai.

Se você está passando por uma situação que lhe causa medo (ou não), agarre-se nesta verdade: No amor não existe medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo (1 João 4.18).

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

O algoz




Por Vanessa Sene Cardoso

Convido você a acompanhar a rotina de uma personagem fictícia, cujo nome é Horah. Tome fôlego e vamos lá!

Horah levanta às 6h30, vai para a cozinha preparar o café da manhã para o marido e os filhos. Enquanto a água ferve, acorda as crianças – elas vão despertando a “prestação” – o marido já está no banheiro se aprontando para o trabalho. Enquanto pai e filhos tomam café, é a vez de Horah se arrumar. Tudo pronto! O marido deixa as crianças na escola, e Horah, no serviço. Ela sai às 12h, pega o ônibus 12h05, vai para a escola buscar as crianças, segue para casa pra preparar o almoço. O marido chega às 13h, são apenas 20 minutos para a refeição, antes das duas da tarde Horah tem que deixar o marido no trabalho para ficar com o carro e dar andamento nas atividades e na rotina dos filhos: natação, futebol, inglês... Volta para casa quase cinco da tarde. Antes de buscar o marido no trabalho, passa no mercado, na padaria, e já está pensando no que vai fazer para o jantar e nas tarefas domésticas que a esperam no terceiro turno. Enquanto o marido ajuda com o jantar e acompanha as crianças nas tarefas da escola, Horah recolhe a roupa, coloca outras na máquina e olha para a pilha perto da tábua e do ferro de passar: – “Hoje não”! O telefone toca, Horah atende:

– Alô!
– Oi Horah, quem fala é a Prudência Remilda. Tudo bem?
– Oi amiga, quanto tempo?!
– Pois é, o tempo...
– Gostaria de marcar um horário para tomarmos um café e colocar o papo em dia. Quando você pode?
– Hum... Gostaria muito, mas estou na correria, acho que essa semana não vai dar. Uma pena! Vou me programar – Horah estava conversando com a Prudência, mas o pensamento estava na lista de coisas por fazer.
–Tudo bem. A gente se fala depois, então. Até mais!
–Tchau.

Depois de fazer tudo que estava programado - inclusive oração e leitura bíblica em família - e colocar as crianças para dormir, Horah e o marido sentam um pouco na frente da televisão e Z Z zzzz... Vencidos pelo cansaço! Ufa! Agora é só aguardar o despertador anunciando o começo de um novo dia.

Você se identificou com Horah? Talvez a sua realidade e rotina sejam bem diferentes, mas uma coisa é certa, todos estamos sob a opressão de um mesmo algoz: o tempo (pelo menos é o que pensamos!). Que tal dar uma pausa na leitura desse artigo para refletir e, quem sabe, descrever a sua rotina? Desafio você a pegar caneta e papel ou digitar tudo o que faz no dia, na semana. Como tem utilizado o tempo? Talvez você descubra que o seu algoz é outro.

Urgências, emergências, intercorrências, interrupções, falta de limites, excesso de ócio são alguns dos usurpadores do tempo. Por mais que se faça um planejamento, ninguém está livre deles. Mas não precisamos nos deixar dominar por esses intrusos.

Na era da tecnologia, da comunicação virtual em tempo real somos bombardeados pelo excesso de informações, o que, muitas vezes, prejudica a comunicação, provocando ruídos. Minha intenção não é transformar a tecnologia, as redes sociais em vilãs. Elas podem poupar nosso tempo ou roubá-lo. Depende de nós.

Você já deve ter ouvido a frase: “Se tiver que dar uma tarefa para alguém, procure uma pessoa que tenha muita coisa para fazer”. Pois quem tem “tempo de sobra” pode acabar caindo na tentação da procrastinação. O excesso de ocupação e a falta do que fazer não refletem o equilíbrio. Talvez você esteja pensando: “ela fala isso porque não conhece a minha rotina”.

Pode soar como um clichê, mas o fato é que o tempo é o mesmo para todos. A vida moderna é cheia de desafios, mas podemos recorrer ao Espírito Santo que nos ensina todas as coisas e ele pode nos ajudar a administrar o uso do tempo. Quais são as prioridades? Elas podem variar conforme o momento da sua vida. Abrir mão de alguma coisa agora, não significa fazer isso para sempre. Planejar é importante. Se a tomada de decisão for difícil, busque ajuda. Onde não há conselho fracassam os projetos, mas com os muitos conselheiros há bom êxito (Provérbios 15.22). Você que é filho de Deus recorra a ele.

Deus orienta os seus filhos por meio do apóstolo Paulo: Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, e sim como sábios, remindo o tempo, porque os dias são maus. Por esta razão, não vos torneis insensatos, mas procurai compreender qual a vontade do Senhor” (Efésios 5.15-17).

Quem é o seu algoz? Você consegue identificá-lo? Se pensar bem e for honesto consigo mesmo vai perceber que não é o tempo. Liberte-se!