sexta-feira, 23 de março de 2018

Aprender sempre




Por Vanessa Sene Cardoso

Um dia desses estava refletindo sobre o significado da ignorância. Talvez a definição mais comum, que vem à mente, seja “falta de conhecimento”. Considerando essa explicação, todos somos e sempre seremos ignorantes. Isso é fato! Ficou desanimado com essa constatação? Para os que ignoram a ignorância, pode ser um consolo. Afinal, por que precisamos buscar conhecimento e novas aprendizagens? Muitas vezes o medo do desconhecido e o comodismo nos impedem de sair da zona de conforto, e de nos aventurarmos por um mundo novo. Existem aqueles que não querem aprender ou não veem necessidade. Direito deles!

Você já viu chácaras ou quintais com um cachorro que, mesmo preso por uma corrente, consegue se movimentar num grande espaço? A sensação é que está solto. Muitas vezes, o animal não percebe que a liberdade dele se limita ao lado de dentro da cerca. Penso que a ignorância e o desinteresse pelo conhecimento e aprendizagem fazem isso com o ser humano. A ignorância nos mantém presos, com a sensação de liberdade. O conhecimento liberta e abre a visão de mundo.

Converse com uma pessoa que não teve a oportunidade de concluir os estudos na infância e adolescência, e retorna aos bancos escolares na idade adulta. Conheço muitas pessoas nessa situação. Elas são muito interessantes!  Tenho profunda admiração pelos curiosos, por aqueles que não se acomodam com o que já sabem, mesmo que sejam estudiosos e profundos conhecedores em determinada área ou no geral. Quando falo sobre a busca por conhecimento, não estou me referindo apenas à educação regular ou formal.

A ignorância em si não é o maior problema. A questão é quando não nos damos conta de que somos ignorantes. Aí mora o perigo! O primeiro passo para avançar é reconhecer que posso e quero crescer em conhecimento. A leitura é uma grande aliada para nos introduzir em novos contextos e abrir nossa visão de mundo.

A escola, nos diferentes níveis de graduação, por mais imperfeita que seja também é um espaço de aprendizagem essencial em nossa vida. Além de transmitir informações e conhecimento, nos ensina a conviver com o outro, desenvolver habilidades sociais. Se você foi privado de oportunidades ou deixou-as passar, nunca é tarde! Que tal pensar na possibilidade de voltar a estudar? No universo do conhecimento há muitas opções – formais e informais.

No ano passado ouvi uma frase de um amigo que já está próximo dos 80 anos: “O dia que eu parar de aprender vou ficar velho”. Confesso que fiquei um tempo pensando nisso. Cheguei à seguinte conclusão: Quando deixo de aprender, paro de viver.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

A lente que usamos




Por Vanessa Sene Cardoso

Hoje vou contar a história de uma menina chamada Borboleta. Ela teve uma infância muito feliz, nasceu em um lar estruturado – longe da perfeição, pois não existe família perfeita –, recebeu amor, afirmação, teve pais presentes, que a ensinaram valores cristãos. Tinha uma grande parentela, com muitos tios, tias, primos, primas, avós, amigos... Suas férias sempre eram incríveis. Borboleta era uma garota criativa, gostava de brincar e, como muitas crianças, também convivia com suas histórias e personagens imaginários. Era alegre, sorridente e comunicativa. Sempre foi boa aluna e muito dedicada.

Por causa do trabalho do pai, Borboleta mudou de cidade algumas vezes. Se por um lado conheceu lugares e pessoas diferentes, por outro sentia vontade de criar raízes. A cada nova escola ou vizinhança, embora acabasse se adaptando, a princípio sentia-se uma forasteira entre as outras crianças, pois a maioria tinha nascido e vivia na mesma cidade.

Quando estava entrando na adolescência, Borboleta mudou novamente de cidade e, consequentemente, de escola. Foi uma fase difícil, de muitas mudanças: física,  emocional, cultural (morava em um estado e mudou para outro com costumes um pouco diferentes); busca por autoafirmação, autoconhecimento, sentido existencial, o que é normal nesta faixa etária. A adolescência também é uma fase em que se procura aceitação no grupo, senso de pertencimento em um ambiente de relacionamento com os “iguais”. Pois bem, esse era o contexto de Borboleta naquela época. Era muito tímida, fazia de tudo para não ser notada. Na nova escola, a maior parte da turma tinha em comum a trajetória escolar, as crianças estudavam juntas desde o início da vida acadêmica, a amizade extrapolava o muro do colégio. Borboleta acabou se aproximando daquelas que, como ela, eram novatas naquele ambiente.

Borboleta tinha um semblante que refletia sua condição emocional – na época – carregada de uma certa melancolia. Na maior parte das vezes era séria, achava algumas brincadeiras meio tolas, se irritava com o comportamento maroto de outras crianças, não sorria muito nas fotos. A alegria da infância se converteu em um sentimento de inadequação e desconforto emocional. Se tornou muito fechada. Na escola encarava alguns comentários e atitudes dos colegas como algo depreciativo, deboche. E, realmente, crianças quando querem sabem ser cruéis. Borboleta reagiu a tudo isso criando uma cerca, onde só permitia o acesso de pessoas muito chegadas e que não representavam ameaça.

Muitos anos depois...Na vida adulta...

Ao entrar na juventude, Borboleta carregou durante alguns anos a impressão equivocada sobre si mesma que construiu na fase de transição da infância para a vida adulta. Sua autoimagem era distorcida, o que interferia na autoestima e na forma como se projetava nos diferentes meios em que estava inserida, bem como na forma como se relacionava com os outros. Enxergava as circunstâncias, as pessoas, o ambiente e a si mesma através da lente que passou a usar na adolescência.

Os valores e ensinamentos que recebeu dos pais, principalmente, sobre a fé cristã e a pessoa de Jesus foram determinantes para que passasse a enxergar com nitidez e verdade quem realmente era. Quando decidiu substituir a lente que distorcia sua visão pela lente cristalina do Espírito Santo percebeu sua verdadeira imagem. O amadurecimento e o senso de identidade em Cristo fizeram com que Borboleta abandonasse a antiga forma de ver e interagir com o mundo (2 Coríntios 3.18).

Com o passar do tempo Borboleta percebeu que naquela fase difícil a lente que usava impediu que enxergasse o mundo, as pessoas e as circunstâncias de forma positiva. Com a bênção da maturidade pôde entender que as pessoas não usavam a mesma lente que ela. A reaproximação anos mais tarde com alguns colegas permitiu uma reconciliação com aquele passado, o que se tornou possível em função da ausência de sua antiga lente.

Reflexão

Uma mesma situação é vista de diferentes maneiras, dependendo da lente que a pessoa usa. Essa lente é composta pela história de vida, crenças, ambiente em que se está inserido, relacionamentos, temperamento, personalidade, etc... Nem sempre ela nos faz enxergar as coisas como realmente são. Com a maturidade trocamos as lentes, mas há quem resista em permanecer enxergando as coisas da mesma forma. Uma questão de escolha!

Quando nos relacionamos com Jesus e permitimos que ele viva em nós, nossa visão vai sendo transformada, à medida que amadurecemos. Isso é graça! É um presente de Deus!

Borboleta, na verdade, era uma lagarta que, no processo natural da vida, criou asas e voou. Experimente sair da zona de conforto!

Fotos: Vanessa Sene Cardoso
Só observando... Que lente você usa?













domingo, 31 de dezembro de 2017

Perspectiva



Por Vanessa Sene Cardoso

“Tem gente que corre, e tem gente que ri de quem corre”. Esta frase foi dita pelo juiz federal e escritor William Douglas ao compartilhar, recentemente, em uma palestra, sua experiência ao participar de uma maratona, no Rio de Janeiro. Foi o 219º colocado entre 221 participantes e como ele mesmo disse, além de ultrapassar duas pessoas, venceu a si mesmo, uma vez que era seu desejo correr a maratona, tendo como maiores obstáculos o sedentarismo, o sobrepeso, a hipertensão. Durante o percurso, uma mulher de cerca de 70 anos, emparelhou com William e lhe disse: “Cuidado com o que você ouve”. E, em rápidas palavras, contou – antes de deixá-lo para trás - que foi chamada de “velha maluca”. Embora ele tenha ouvido, ao longo do trajeto, das pessoas que acompanhavam a prova, palavras de deboche e desencorajamento, como “lesma, tartaruga”, não se deixou desanimar. Venceu!

Histórias como essa são comuns em livros de autoajuda e palestras motivacionais. Mas deixando o clichê e os preconceitos de lado, precisamos de motivação em nossa vida, pois ela é um combustível para mudanças.

A motivação extrínseca - que vem das pessoas próximas ou das circunstância - é muito importante para nos impulsionar a sair da zona de conforto; mas ela, por si só, não tem um efeito duradouro, pois quando perdemos o incentivo dos amigos ou de outros fatores externos corremos o risco de estacionar ou voltar à estaca zero. Quando a motivação é intrínseca, ou seja, de dentro para fora, tende a produzir melhores resultados. Mas mesmo nesse caso estamos sujeitos a oscilações em nossas emoções, o que pode nos levar ao desânimo.

Como a motivação opera em nós impulsionando para a mudança? Não tenho uma resposta com base em pesquisas ou estudos científicos, e minha intenção com este artigo não é essa. Quero apenas compartilhar e promover a reflexão, a partir do que tenho experimentado em minha vida. Penso que o ponto de partida é conhecer a si mesmo, saber os pontos fortes e fracos, como funciono nas “engrenagens” da vida: trabalho, família, relacionamentos e outras. Minhas ações e reações diante das circunstâncias revelam muito a meu respeito. E aqui quero ressaltar que os verdadeiros amigos (e até os inimigos) podem nos ajudar a enxergar coisas a nosso respeito. Mas atenção! A percepção dos outros, e a nossa própria percepção devem ser levadas em conta no processo de mudança; mas vale ressaltar que ambas são apenas percepções, versões. Então, quem eu realmente sou? Saber a resposta a essa pergunta é fundamental, é o começo de tudo, é determinante para as mudanças que tanto almejamos.

Sou cristã e creio que ao receber Jesus tenho uma nova natureza. Essa é minha identidade. O Espírito Santo é quem produz a motivação interior para as mudanças. A videira produz uva. Simples assim. Muitas vezes damos mais importância para as versões de nós mesmos do que para quem somos de fato. Talvez as mudanças que tanto desejamos tenham outro nome: maturidade. Só amadurecemos se sabemos quem somos. No fundo é isso que queremos. Nosso relacionamento com Deus, em primeiro lugar; com nós mesmos; e com os outros nos levam ao amadurecimento.

Saber quem eu sou gera segurança e convicção de que existe um propósito de vida, e o resultado desse entendimento são as mudanças para melhor, o amadurecimento. Caminhando com Jesus é impossível permanecer na zona de conforto, porque ele sempre tem lições novas para nos ensinar, é uma fonte inesgotável de vida, conhecimento e sabedoria. O fato de perceber que preciso crescer já é um avanço, mesmo que, num primeiro momento, eu não consiga sair do lugar. A posição que assumo diante dessa condição também é fundamental: crescer ou permanecer na atual estatura. Ninguém pode tomar essa decisão por mim.

O Espírito Santo habita em você? É ele quem nos ensina e nos capacita em todas as coisas (João 14.26). Por isso, anime-se! Pois eu estou certo de que Deus, que começou esse bom trabalho na vida de vocês, vai continuá-lo até que ele esteja completo no Dia de Cristo Jesus (Filipenses 1.6 – NTLH). Eis a promessa!

Feliz 2018! Que nesse novo ano aproveitemos as oportunidades para crescer, e desfrutar de uma vida abundante, em Cristo Jesus.

Eis que faço novas todas as coisas (Apocalipse 21.5).


*Dei aos desenhos que ilustram esse artigo o título de “Meu retrato: dois pontos de vista”. As autoras são minhas sobrinhas. Elas me desenharam espontaneamente e em momentos diferentes. Presentes significativos para mim!


Para ouvir a palestra do juiz federal William Douglas, acesse aqui

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Dica de leitura

 
Por Vanessa Sene Cardoso


Quando você costuma cantar? Talvez num momento de alegria, de conquista; ou no trabalho, caso seja um profissional da música; ou ainda, no dia a dia, automaticamente, por hábito. Cantar é uma ação voluntária e que, normalmente, nos remete a algo bom e leve, momentos felizes.

O que você sente ao se deparar com uma tempestade? Talvez medo, diante dos trovões, raios, fortes ventos; ou melancolia diante de um cenário carregado, céu escuro, nuvens negras. A palavra tempestade também serve como metáfora para momentos difíceis que enfrentamos em nossa vida. Lutas na área financeira, enfermidades, conflitos nos relacionamentos, e outras situações. As tempestades não dependem da nossa vontade, trata-se de algo que não conseguimos controlar.



Este livro, “Cantando nas tempestades”, nos sugere uma atitude voluntária diante de algo alheio à nossa vontade, que, na maioria das vezes, não podemos mudar. A leveza de uma canção no meio de um cenário pesado proporciona equilíbrio em nossa caminhada. Mas como é possível cantar em meio às tempestades? A decisão é nossa, a capacitação vem do Espírito Santo, que nos auxilia em nossas fraquezas, ensina todas as coisas, e nos faz lembrar as promessas do Senhor, que nos sustentam durante os momentos difíceis.


As meditações escritas pelo Pr. Messias neste devocionário retratam várias situações da vida pelas quais passamos, e para cada uma, ele apresenta orientações bíblicas de como podemos enfrentar, de forma leve,os desafios que nos são propostos.



Que este livro edifique a sua fé, e que o Espírito Santo traga vida às palavras e coloque em seus lábios um novo cântico.

Dica de leitura:


Cantando nas tempestades - Devocionário
Autor: Pr. Messias Anacleto Rosa
Editora: Ministério Multiplicação da Palavra - MMP 

(1ª Igreja Presbiteriana Independente de Londrina) 

Informações: mmp@ipilon.org.br


domingo, 29 de outubro de 2017

Dando jeito no jeitinho


Por Vanessa Sene Cardoso


Depois de 14 horas de viagem, finalmente, pisamos em solo brasileiro. Que sensação boa voltar para casa, para nosso país, nossa cultura, nossa língua, ainda mais depois de vinte e um dias em solo estrangeiro. Mas chegando no aeroporto fomos recebidos com um balde de água fria da realidade brasileira. Confesso que por um momento – muito rápido, mesmo - senti vontade de pegar as malas e voltar para a nação de onde acabava de chegar. Talvez você esteja se perguntando: o que aconteceu de tão grave? Vamos lá!

Filas desorganizadas. Até aí tudo bem. Estávamos em um grupo e com bastante bagagem para despachar. Mal entramos na fila, que não estava pequena, e fomos abordados por um homem uniformizado, aparentando ser funcionário do aeroporto:

- Vocês não precisam enfrentar essa fila. É só me acompanhar e poderão despachar direto.
- Como funciona isso? – perguntamos.
- É só me dar uma gorjeta e fica tudo certo. Nada de espera!
- Nós recusamos a oferta.

Ah! O “jeitinho brasileiro”... Desse traço da nossa cultura - se é que posso considerar dessa maneira - não senti saudades. Aliás, a Lei de Gérson, essa mania de “querer levar vantagem em tudo” está tão impregnada no nosso dia a dia que, muitas vezes, isso é encarado como algo normal, natural, afinal, que mal há em:

*Guardar lugar no teatro para nossos amigos que vão chegar em cima da hora ou atrasados. Quem se programou, chegou antecipadamente, que fique nos últimos assentos, afinal estamos guardando lugar para os NOSSOS amigos que são muito mais especiais. Isso não é tão grave, é? Se pensarmos que pessoas se programaram para chegar mais cedo e pegar um bom lugar e poderão sair prejudicadas, é algo a se pensar.

*Receber troco a mais na padaria e ficar com ele, afinal o erro não é MEU. Está tudo muito caro mesmo. Uns trocados não vão fazer falta para o comerciante.

*Conseguir um atestado médico... “Puxa! Gostaria de ir ao estádio assistir ao jogo do meu time do coração na capital. Como justificar no trabalho uma viagem para tal finalidade? Ah! É só pedir um atestado para aquele MEU amigo que é médico”.

*Assinar a TV a cabo e, conforme o vendedor ofereceu extraoficialmente, compartilhar o sinal com mais cinco usuários, pagando apenas por um ponto. Os MEUS familiares sairão no lucro. Como diz o ditado popular, o mundo é dos espertos.

*Sonegar...Para que pagar imposto? Além de o valor ser exorbitante, o dinheiro vai para o bolso dos políticos corruptos.

*Quanto MEUS colegas deputados e EU vamos receber para aprovar a lei que trará vantagens para a sua empresa?

Haja jeitinho... Sinta-se à vontade para acrescentar mais situações nessa lista.

Deixando a ironia de lado...

Se fizermos uma enquete com cidadãos comuns sobre o que eles acham do cenário político, ou de nossas lideranças e dos órgãos públicos, muito provavelmente, os entrevistados vão dizer:

-Os políticos são a vergonha nacional.
-Os corruptos merecem cadeia.

A diferença entre um “pequeno” ato de corrupção e um “grande” ato de corrupção pode estar nas consequências que trazem, mas na essência são exatamente iguais.

Vale a pena a reflexão sobre a nossa própria conduta. Vemos “Gérson” (o que dá nome à lei) refletido no espelho?

Enquanto apontamos um dedo para alguém, há três dedos voltados para nós. Se queremos uma sociedade melhor, não adianta apenas denunciar os erros (isso é importante), mas é necessário avaliar nossa conduta e colocar em prática princípios e valores.

A nação é formada por cada um de nós. Se queremos alguma mudança temos que nos dispor a ser o ponto de partida. Não podemos nos deixar controlar pela “Lei de Gérson”, mesmo que isso signifique nadar contra a correnteza. Afinal não temos que nos deixar moldar pelo senso comum, quando na verdade de “senso” e de “comum”, muitas vezes, não tem nada. Estejamos alertas!

Jesus nos deixou dois mandamentos: Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento. Este é o primeiro e maior mandamento. E o segundo é semelhante a ele: Ame o seu próximo como a si mesmo (Mateus 22.37-39 - NTLH).

Creio que a lei do amor de Deus, sim, pode fazer diferença e promover o bem a todos, a partir de cada um que a pratique.

sábado, 2 de setembro de 2017

Uma história real





Por Vanessa Sene Cardoso

Deus não só ouve as orações, como faz infinitamente mais do que pedimos ou pensamos, segundo o seu poder que opera em nós. 

“Pai, criei minha filha aos teus pés e a quero de volta”, essa era a oração fervorosa de Isaura, em uma das muitas madrugadas em que, de joelhos, esperava a jovem chegar em casa. Foram longos anos aguardando a resposta dessa oração.

Convido você a acompanhar a trajetória da filha de Isaura. Ela passou a primeira infância em Pirapozinho, interior de São Paulo. Era feliz. Os pais, cristãos, transmitiam pelo testemunho e pelos ensinamentos, a sua fé aos filhos. Realizavam diariamente o culto doméstico, o que deixou marcas profundas na vida da filha. Algum tempo depois mudaram-se para Londrina. Eram tempos de guerra. A família frequentava a Igreja Presbiteriana Independente que, na época, era pastoreada pelo Rev. Jonas Dias Martins. A filha de Isaura foi batizada por ele e muito influenciada por seus ensinamentos. Durante a infância e adolescência foi muito envolvida na Igreja, com a mocidade, visitando as famílias e os lares necessitados. Aos 18 anos recebeu Jesus como Salvador e Senhor e fez a pública profissão de fé.

Pouco depois decidiu ir para São Paulo. Tinha muitos sonhos. Começou a estudar e logo arrumou um emprego. Aquela nova vida afastou-a de Deus. Ingressou na faculdade e começou a prosperar na área profissional, tendo um salário que proporcionou a ida de seus pais para a capital paulista. Por outro lado tinha uma conduta desregrada, com noitadas, uso de drogas, relacionamentos com vários homens. Chegou a se casar, mas pouco tempo depois veio o divórcio. Durante esse período, Deus usou algumas formas para falar com a jovem, mas ela estava resistente. Depois de um tempo voltou a frequentar a igreja, porém manteve uma vida dupla. Passou a fazer uma escola bíblica, mas somente dois anos depois teve um reencontro com Deus que mudou o curso de sua vida. Deus respondeu a oração de Isaura e resgatou sua filha, Delci Esteves dos Santos.

Ao final do curso, Delci participou de um seminário de missões. Perguntou ao diretor da Missão Antioquia, Pr. Jonathan Ferreira dos Santos, se havia algo que uma mulher de 37 anos, divorciada e sem filhos poderia fazer pela obra missionária. A reposta veio por meio de uma pergunta:

- Você se lembra de quantos anos Moisés tinha quando Deus o chamou? 
- Sim, pastor, 80 anos.
- Você tem menos da metade disso e, portanto, para mim, está qualificada!
           
Em 1980 começou a trabalhar como voluntária, duas noites por semana, na Missão Antioquia. Mas com o passar do tempo foi desafiada a abandonar o bom emprego de muitos anos, sua carreira sólida e o ótimo salário, para se dedicar tempo integral. Vendeu o apartamento, e apesar de ter recebido do chefe a proposta de salário dobrado, não aceitou. Foi viver na sede da Missão, onde atuava como secretária, cuidava da parte administrativa, e ainda participava da escala da limpeza e outras atividades. Detalhe: não recebia honorários por isso. Era uma vida em comunidade, sem luxo, com pouca privacidade, uma ótima oportunidade para ter o caráter aperfeiçoado. Não foram poucas vezes que questionou a Deus e pensou em desistir. De temperamento forte e independente, aprendeu a duras penas, depender de Deus e buscar, em oração, a direção nas decisões. Quando a Missão Antioquia inaugurou o Vale da Bênção em Araçariguama/SP, teve que ficar alojada por alguns anos em uma barraca. Tudo isso fazia parte do treinamento prático para o futuro que o Pai lhe havia reservado. Logo em seguida foi enviada para representar a Missão na Inglaterra onde permaneceu por quatro anos até retornar ao Brasil para organizar o congresso da COMIBAM – Comissão Missionária Ibero-Americana. Durante o evento foi desafiada a ir para Moçambique, onde precisavam de missionários que falassem português. Deus confirmou para Delci que a queria na África. Em 12 de junho de 1989 ela embarcou. A princípio atuava como professora de escola bíblica para treinamento de obreiros e pastores.

Moçambique estava em guerra. A situação era triste. Muitas crianças órfãs viviam pelas ruas, expostas a todo tipo de atrocidades. Apesar de nunca ter se interessado por crianças, Delci foi tocada por Deus - ao ver a cena de um garoto dormindo na calçada - e teve seu olhar voltado para elas, às quais começou a oferecer leite e pão, tendo uma árvore como ponto de encontro semanal para ensinar sobre Jesus. A cada sábado chegavam mais crianças. Delci doava metade do seu sustento para alimentar os pequenos. Mas a situação estava ficando difícil.

Ela orou para que o Senhor desse um local para abrigar aquelas crianças. Deus abriu as portas, e a missionária recebeu a quantia exata para comprar uma casa, reformá-la e concretizar o processo de registro da instituição. Nessa época já contava com o apoio de Alfredo Banzima, um dos primeiros frutos do seu trabalho, como professora de escola bíblica. Já instalados na sede do projeto, certo dia, ao observar as crianças chegando em fila, as menores nas costas das maiores, exclamou: “Parecem formigas!” E Deus a fez lembrar de Provérbios 30.25: A formiga é um povo indefeso, que, no verão, prepara sua comida. O Espírito Santo lhe disse: “Quem vai preparar o inverno dessas crianças?” Delci, prontamente, respondeu: “Deus, estou aqui para isso”. Assim nasceu a Casa das Formigas – centro de apoio à criança, inaugurada em 21 de fevereiro de 1991. A instituição chegou a atender 500 crianças em tempo parcial e algumas internas, oferecendo assistência escolar, alimentar, de saúde, bem como ensino da Palavra de Deus. Muitos já se formaram no ensino superior, constituíram família e, atualmente, a Casa das Formigas tem na sua diretoria Simione e Graciete Mate, frutos do seu trabalho missionário.

Isaura dizia à filha que só retornasse ao Brasil quando Deus ordenasse. Delci queria morrer na África, pois se considerava uma “nativa”. Mas os planos de Deus eram outros. Em 25 de abril de 2016, nossa irmã, já doente, retornou ao Brasil para receber os cuidados de que necessitava. Veio para o Lar Maria Tereza Vieira, em Londrina, em dezembro, onde comemorou seus 79 anos, e duas semanas depois do aniversário, no dia 18 de janeiro de 2017, completou sua carreira na terra, como disse o apóstolo Paulo. Foi para a casa do Pai.

Delci deixou marcas na vida de muitas pessoas. Sua história está registrada no livro “Deus sabe o que faz”, publicado pela Missão Antioquia em 2014, e disponível na Livraria, no Espaço Esperança. A biografia foi dedicada à sua mãe, que por toda vida orou para que Delci fosse missionária.

Vale a pena conhecer mais a fundo o testemunho de nossa querida Delci que decidiu viver para Cristo e seguir o conselho da mãe: “Assim, obedecei suas ordens sem discutir”.

Deus fez infinitamente mais, Isaura.


domingo, 2 de abril de 2017

Sobre música...



Por Vanessa Sene Cardoso

Eu gosto de música, não conheço alguém que não goste. Talvez uns apreciem mais, outros, menos; uns vivem dela, outros a utilizam como meio de expressão. Quem não gosta não tem como fugir, pois ela está presente em toda parte. Hoje esse é o tema da minha reflexão.

A música é um excelente instrumento a serviço da razão. Por meio dela fazem-se críticas, protestos, manifestam-se opiniões. Como exemplo, temos a ditadura militar no Brasil. O regime não conseguiu calar os poetas que, por meio da música engajada, lutaram e enfrentaram a censura nas décadas de 60 e 70. Mas não podemos ignorar que a música é uma forma de expressar emoção, tocar sentimentos e, para isso, muitas vezes, prescinde das palavras, bastam ritmos, melodias, sons. Ela tem poder de transcender o mundo das ideias, a força da razão.

Os gemidos de lamento dos negros escravos na América, no século XVIII, projetavam toda dor, sofrimento e revolta. Talvez as palavras fossem insuficientes para expressar o que sentiam. Esses lamentos deram origem a um dos estilos musicais muito apreciados, o negro spiritual.

Penso que há momentos que temos que deixar de ser escravos da razão ou limitados por ela para experimentar algo profundo e desconhecido, sem medo! A música tem a virtude de tocar a alma das pessoas independentemente da idade, da raça, do gênero, da escolaridade, da nacionalidade, dos níveis cultural e intelectual. A razão que deveria nos libertar dos preconceitos, muitas vezes nos induz a eles, pois ela é influenciada por informações, conhecimentos adquiridos, histórico de vida, filosofias e por tudo isso, às vezes, bloqueia a emoção.

Razão e emoção se completam. Que tal, razão, dar um espaço para a emoção fluir?


Música: razão + emoção