Por Vanessa Sene Cardoso
Fim de ano, na maioria das vezes, requer uma retrospectiva ou reflexão
sobre os doze meses que se passaram. Decidi fazer uma analogia de 2020 e as
etapas da vida. Aliás, ela passa em um piscar de olhos, assim como o ano.
Infância
A infância é a fase da imaginação, da fantasia. Quando eu era criança,
costumava criar histórias, personagens com os quais conversava, e que povoavam
as minhas brincadeiras solitárias. Nos momentos coletivos, o elenco exclusivo
ficava quietinho dentro do meu universo particular. Junto com outras crianças,
a coisa mudava de figura, ou melhor, surgiam novos personagens e invenções.
Brinquei e criei muito na infância. Um simples tapete cobrindo duas
hastes de madeira encostadas no muro do fundo do quintal, e uma bacia de lavar
roupa no gramado se transformavam em uma casa com piscina – a coqueluche dos
anos 70 e 80. Tudo parecia grande e real. As bonecas tinham nome e, para mim,
eram filhas, sobrinhas, irmãs...tinham vida própria.
Quando o ano começa, normalmente, é assim. E 2020 não foi diferente. Ficamos
como crianças esperando por algo novo, surpreendente; basta observar o
comportamento, as reações das pessoas na passagem do ano. Penso que até os mais
pessimistas, lá no fundinho, têm expectativas e trazem à tona aquela velha
criança, meio empoeirada, com algum mofo, cheirando naftalina; talvez meio sem
vida, como as bonecas abandonados na adolescência. Mas ela está lá no interior.
Adolescência
A adolescência chega de repente. O corpo fica estranho, os hormônios desconfiguram
a imagem diante do espelho: espinhas na testa; boca, nariz, orelhas ENORMES; e
no caso dos meninos, ainda tem a voz que, em um segundo, sobe e desce uma
oitava; os sentidos parecem ficar mais aguçados, e desordenados. Isso sem falar
no turbilhão emocional. Para as meninas, em especial, tudo é intenso, ganha
novas proporções: “Minha melhor amiga”, “Odeio cebola”; “Se eu tirar nota
vermelha, morro”; “Pareço uma baleia”. Quem nunca?!
Descobrimos um mundo abstrato que nos suga da concretude da infância. A
inocência se depara com a realidade. Queremos romper com a etapa anterior. Essa
é a fase do conflito, do confronto, das dúvidas, dos questionamentos. A
transição da infância para a vida adulta é um tempo marcado pela instabilidade.
Parafraseando um adolescente, é o CAOS. Temos crise de identidade, inadequação;
surgem os rótulos, apelidos.
Falando assim, parece não ter nada de bom. Mas quem já passou por essa
fase sabe o quanto é divertido. A gente ri à toa, se apaixona, descobre como é
legal fazer parte de uma turma, começa a conquistar autonomia, descobre tanta
coisa nova.
A adolescência de 2020 começou em março. Quem imaginaria que, do dia
para noite, nossa rotina, a sociedade, o mundo virariam de cabeça para baixo?!
A pandemia de Covid-19 e seus desdobramentos desestabilizaram nossa vida,
mudaram nossos hábitos, nossas relações, nossa comunicação. Ufa! Esse tema já
foi abordado à exaustão.
Juventude
A juventude é a fase da sensação de invencibilidade. EU TENHO A FORÇA!
Escolho minha carreira, conquisto a independência, sou o dono do meu nariz e da
verdade. Para que ouvir o conselho dos mais velhos?! Eles estão por fora,
ultrapassados – permitam-me essa pitada de exagero, ok?
Em maior ou menor escala, o jovem não se liga muito no passado, que é
recente; e também não se imagina no futuro, embora faça planos. O que importa é
o “agora”. Afinal, é uma fase de muito vigor, sonhos, desejos. Há muita energia
para gastar, falta apenas o fio para conduzir e canalizar essa energia. Isso
vem com o tempo e a experiência. Essa é a hora de quebrar a cara. Ainda dá
tempo de recomeçar. A juventude é linda. Vigor, boa aparência física, muitas
oportunidades pela frente.
Depois do turbilhão provocado pela pandemia, que deixou tudo fora do
lugar, nos deparamos com novas possibilidades de fazer as coisas, reinventar o
cotidiano, eis aí uma característica típica da juventude: inovar; desconstruir
para depois reconstruir de outra forma. Tivemos que mudar nossos hábitos, comportamento,
forma de comunicação.
Maturidade
Quando chegamos à fase adulta temos a convicção de algo que até então era
uma suspeita: a vida é difícil. Nem tudo é possível; o fracasso e a frustração fazem
parte do script; não existe príncipe encantado; as contas para pagar não
falham; temos limitações; o controle é uma ilusão...
Como em cada etapa, a maturidade tem suas compensações. Adquirimos
sabedoria com as experiências; entendemos que tudo passa; atingimos um estado
de contentamento e conforto em ser quem somos, pois passamos a nos conhecer
melhor; a opinião dos outros a nosso respeito perde força de comando; nossas
emoções trocam a montanha russa pelo trenzinho; percebemos que, muitas vezes, a
paz tem mais valor do que a razão. Experimentamos a liberdade.
E 2020 termina com algumas frustrações, sonhos abortados, planos não
realizados, perdas; mas, como na maturidade, rico em aprendizado. Para mim, o
saldo é positivo. Deixo a bola quicando para você... Reflita. É um bom
exercício!
2021
Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo,
passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo (João 16.33).
A palavra de Jesus para nós
hoje e no ano que se inicia é TENHAM BOM ÂNIMO. Não tem como evitar as
intempéries da vida. Mas, em Cristo, encontramos a paz que não depende de
circunstâncias. PAZ é o que desejo para você.
Feliz Ano Novo!