domingo, 2 de abril de 2017

Sobre música...



Por Vanessa Sene Cardoso

Eu gosto de música, não conheço alguém que não goste. Talvez uns apreciem mais, outros, menos; uns vivem dela, outros a utilizam como meio de expressão. Quem não gosta não tem como fugir, pois ela está presente em toda parte. Hoje esse é o tema da minha reflexão.

A música é um excelente instrumento a serviço da razão. Por meio dela fazem-se críticas, protestos, manifestam-se opiniões. Como exemplo, temos a ditadura militar no Brasil. O regime não conseguiu calar os poetas que, por meio da música engajada, lutaram e enfrentaram a censura nas décadas de 60 e 70. Mas não podemos ignorar que a música é uma forma de expressar emoção, tocar sentimentos e, para isso, muitas vezes, prescinde das palavras, bastam ritmos, melodias, sons. Ela tem poder de transcender o mundo das ideias, a força da razão.

Os gemidos de lamento dos negros escravos na América, no século XVIII, projetavam toda dor, sofrimento e revolta. Talvez as palavras fossem insuficientes para expressar o que sentiam. Esses lamentos deram origem a um dos estilos musicais muito apreciados, o negro spiritual.

Penso que há momentos que temos que deixar de ser escravos da razão ou limitados por ela para experimentar algo profundo e desconhecido, sem medo! A música tem a virtude de tocar a alma das pessoas independentemente da idade, da raça, do gênero, da escolaridade, da nacionalidade, dos níveis cultural e intelectual. A razão que deveria nos libertar dos preconceitos, muitas vezes nos induz a eles, pois ela é influenciada por informações, conhecimentos adquiridos, histórico de vida, filosofias e por tudo isso, às vezes, bloqueia a emoção.

Razão e emoção se completam. Que tal, razão, dar um espaço para a emoção fluir?


Música: razão + emoção

quarta-feira, 8 de março de 2017

Quero ser como Maria


Por Vanessa Sene Cardoso

“Sede imitadores meus e observai os que andam segundo o modelo que tendes em nós” (Filipenses 3.17). Lendo a Bíblia encontramos vários exemplos de homens e mulheres que podemos seguir, mas hoje a nossa conversa é sobre as mulheres. Vamos relembrar de algumas?

Bom, comecemos por Eva. Que privilégio ser a primeira mulher com a missão importantíssima de auxiliar Adão a governar a terra. E Sara?! Experimentou o milagre de conceber o filho da promessa na velhice. Raabe, a cananita, teve atuação relevante quando os judeus conquistaram a terra prometida. Mas ela não era uma prostituta?! Pois é, mas essa mulher de “reputação duvidosa” tem lugar de destaque, faz parte da genealogia de Jesus. Temos Rute, a moabita, que pela cultura da época seria rejeitada no meio do povo de Israel, mas foi presenteada por Deus com um resgatador, seu marido, que a colocou em posição de honra. E essa estrangeira também foi incluída na árvore genealógica de Jesus. Ester é outro exemplo: salvou o seu povo de ser exterminado. Essas são apenas algumas mulheres e nem chegamos ao Novo Testamento!

Não poderíamos deixar de destacar Maria, mulher escolhida por Deus, para dar à luz a Jesus, nosso Salvador. Ela foi uma serva por meio da qual Deus se tornou humano. Realmente foi privilegiada! No Novo Testamento temos vários outros exemplos: Marta e Maria, irmãs de Lázaro, amigas de Jesus; Dorcas que era “notável pelas boas obras e esmolas que fazia” (Atos 9.36). Ela era muito amada e as mulheres com quem convivia sentiram tanto a sua morte que Deus, por meio do apóstolo Pedro, a ressuscitou. Os exemplos não param por aí...

A história continua sendo escrita: “Vocês mesmos são a nossa carta, escrita no nosso coração, para ser conhecida e lida por todos. Sim, é claro que vocês são uma carta escrita pelo próprio Cristo... Não foi escrita com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo” (2 Coríntios 3.2-3 - NTLH). Olhando as mulheres da Bíblia, aprendemos com elas, mas são realidades que, às vezes, parecem um pouco distantes de nós. E hoje, no mundo em que vivemos, temos a quem imitar? Exercite a sua memória novamente! Pense em alguma mulher que você conhece. Creio que a resposta é sim. Há pessoas que são verdadeiras cartas vivas. É sobre uma delas que eu quero compartilhar.

A pequena Maria nasceu em 18 de abril de 1915, no interior de São Paulo. Era de uma família portuguesa e muito religiosa. Como grande parte das moças do início do século XX era prendada e foi preparada para ser esposa e mãe. Aos 19 anos casou-se. Com ela levou algumas imagens de quem era devota. Seu marido era cristão, e por meio do testemunho dele teve um encontro pessoal com Jesus. A partir de então começou sua caminhada na fé. Deus a abençoou com uma família numerosa. Teve quatro filhos e seis filhas, o primeiro morreu com poucos meses de vida, o que lhe trouxe muita tristeza e dor. Também passou por dificuldades financeiras, o marido foi perseguido e ameaçado no trabalho. Em todos os momentos, porém, não se desgarrou de Jesus.

A família foi aumentando, tornou-se a vó Maria. A vida pregava-lhe mais uma peça, seu companheiro ficou muito doente e faleceu. Começava uma nova etapa, mas ela sabia onde se derramar nos momentos de fragilidade e, ao mesmo tempo, encontrar forças para sua jornada: aos pés da cruz e nos braços do Pai. Entre tantos desafios que Deus tinha para essa filha, um deles se apresentou quando já estava com mais de 70 anos. Maria havia morado em várias cidades, talvez mais de 30. A maior parte no Paraná. Mas Deus a chamou para um local distante, mudou-se para o Mato Grosso do Sul. Lá abriu a sua casa para receber irmãos e irmãs na fé, e Deus foi acrescentando os que iam sendo salvos. Nasceu uma igreja.

Maria teve 21 netos e mais de 30 bisnetos. A partir dos 80 anos, quando lhe perguntavam como era ter aquela idade, dizia: “tenho canseira, mas não enfado”, numa alusão ao Salmo 90.10. Suas marcas eram a alegria, serenidade com que enfrentava as diversas situações da vida, sabedoria conquistada ao longo dos anos na presença de Deus, doçura, simplicidade. Era uma intercessora, amava sem esperar nada em troca porque sabia quem poderia supri-la. Em março de 2011, pouco antes de completar 96 anos, completou a carreira que lhe estava proposta, com perseverança sempre olhando firmemente para o autor e consumador da sua fé (Hebreus 12). Com certeza recebeu a coroa! 

Maria é minha avó, vi nela as marcas de Jesus, tenho lido essa carta viva. Posso dizer com toda convicção que ela é digna de ser imitada. Sua vida foi e é uma inspiração. “A quem honra, honra” (Romanos 13.7). 

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Preconceituoso, eu?!




Por Vanessa Sene Cardoso

Você se considera preconceituoso? A resposta politicamente correta é não. Mas se usar de honestidade, ainda que seja consigo mesmo, talvez admita um certo conceito pré-estabelecido. Veja bem, não se trata de preconceito.

Convido você a bisbilhotar conversas de algumas pessoas. O que acha?

— Imagina! A vida dos outros não me desperta curiosidade.

Neste caso não tem problema, pois são apenas personagens fictícios e “nada” tem a ver com a realidade. Vamos!  

— Não é do meu feitio, mas já que você insiste...

No ônibus

Segunda-feira, 7 horas da manhã, Adélia esperava, no ponto, o ônibus para o trabalho. Estava em cima da hora e isso lhe causava irritação, uma vez que tinha por hábito chegar adiantada pelo menos dez minutos. Ainda por cima, tinha uma fila para entrar no coletivo. Finalmente conseguiu. Que aperto! Alguém que estava um pouco atrás dela puxou assunto.

— Adélia, tudo bem?
— Oi, Sílvia.
— Menina, você sabe o motivo da fila para entrar no ônibus?
— Ah! É que aquela moça gordinha ali ficou entalada na roleta.
— Sério?
— A vida de uma pessoa gorda é tão complicada, né?! Devia tomar vergonha e fazer um regime.
— Não é tão fácil. Eu já fui obesa, fiz tudo quanto é tipo de regime e não consegui perder peso. A solução para o meu caso foi a cirurgia de redução do estômago.

Adélia ficou sem resposta e as duas seguiram sem trocar mais nenhuma palavra até a parada final.

Na praça de alimentação do shopping

Era um sábado à tarde e depois de saírem do cinema, Márcia e Dora decidiram tomar um lanche.

— Quanta gente, Dora!
— É mesmo. Estou vendo uma mesa ali.

As duas se acomodaram. E enquanto lanchavam, observavam o movimento. Pessoas bem vestidas, aparentando boa condição financeira, logo renderam comentários.

— Sabe Márcia, eu vejo essas pessoas passeando aqui e penso: “quanta futilidade!”
— Por quê?
— Muitas delas não sabem o que é lutar na vida. Está vendo aquela moça de verde ali? Aquela toda arrumada, cheia de joias, roupa de marca, e óculos de sol - aliás não sei porque usar óculos de sol em ambiente fechado - ela nem olhou para a mulher que está recolhendo o lixo ao lado da mesa dela. Quanta arrogância!
— Mas a mulher da limpeza falou com ela?
     — Não vi.
     — Por que o comentário então?
     — Sabe porque esse tipo de atitude me incomoda, Márcia? É que eu nasci numa família pobre, perdi meus pais quando era adolescente, tive que batalhar muito para estudar, conseguir um emprego e ainda hoje, luto com dificuldade. Quando você passa por privações, fica mais aberta e sem preconceitos. Por isso quando eu vejo pessoas que nunca precisaram lutar por nada, receberam tudo de bandeja, e ainda ignoram os outros, eu fico inconformada.
     — Realmente algumas pessoas se acham melhores que as outras, mas isso não necessariamente tem a ver com condição financeira. Se não me engano, aquela moça de verde é uma amiga da minha chefe e ela tem um problema de visão, é quase cega. Neste caso a sua indignação não faz sentido, Dora.               

Depois do comentário de Márcia, a conversa acabou e as duas terminaram o lanche observando em silêncio o movimento na praça de alimentação.

Na fila do banco

Era segunda-feira, quase meio-dia, Carlos e Roberto se encontraram na fila do banco.

     — Cara, que movimento! Carlos iniciou a conversa.
     — É verdade. Ainda por cima não entendo por que os idosos costumam vir retirar a aposentadoria bem nesse horário. Eles têm tempo de sobra e a gente apenas o horário de almoço para vir ao banco. Eu fico irritado, desabafou Roberto.

Um pouco mais à frente, na fila, havia dois rapazes falando alto, rindo, pareciam nem se incomodar com a demora. Estavam se divertindo. Um deles era alto, forte, usava uma camiseta regata branca exibindo os músculos; o outro era franzino, com trejeitos efeminados.

Roberto olhou para os rapazes e disse a Carlos:

     — Olha só o jeitinho daqueles dois, que pouca vergonha!
     — Ué, aquele de branco não é o seu primo? Aquele que indicou você para esta empresa em que está trabalhando?

Roberto não tinha percebido que era o seu primo um dos rapazes. Ficou desconcertado, inventou uma desculpa, disse que acabava de se lembrar de um compromisso. Quando ia saindo ouviu alguém lhe chamar:

     — Ei, primo.
Roberto, meio sem jeito, se aproximou do rapaz na fila.
     — Desistiu de esperar?
     — Lembrei que tenho um compromisso. Vou deixar para descontar o cheque depois.
     — Se quiser eu desconto pra você e deixo lá na empresa. Aliás, como vai o novo emprego?

Na porta do bar

Gil e Marcelo haviam combinado de encontrar Valmir na porta do bar onde tomariam alguma coisa antes de ir pra balada. Enquanto aguardavam o parceiro, observavam a igreja do outro lado da rua, bem em frente ao bar.

      — Gil, eu acho esse povo tão bitolado, fundamentalista. Eu não entro em igreja por nada neste mundo.
      — Muitos evangélicos são mesmo alienados, se acham donos da verdade, mas alguns são “gente boa”, como a minha avó. Ela nunca condenou meu estilo de vida.
      — Eu não gosto de crente. Sou favorável a leis que ponham um freio nessa gente preconceituosa, afinal de contas liberdade de expressão é válida apenas para quem sabe usar.
      — Em parte concordo com você. Mas quem é capaz de determinar o “bom uso” da liberdade de expressão? Será que existe um legislador ou juiz totalmente imparcial para isso? Muitos usam o conceito de liberdade de expressão para legitimar o preconceito seja de que lado for.

Gil e Marcelo foram interrompidos abruptamente por Valmir que se aproximou ofegante.

       — Está tendo uma troca de tiros entre polícia e assaltantes ali na esquina. Levei um tiro de raspão. A coisa está feia. Vamos entrar no bar.
       — Aqui não — disse o segurança barrando a entrada dos rapazes — não queremos confusão.

Apavorados, atravessaram a rua correndo e entraram na primeira porta aberta que encontraram.

       — O que aconteceu?  —  perguntou um homem grisalho e sorridente no saguão da igreja.
       — Está tendo uma perseguição policial aí na rua. Meu amigo levou um tiro de raspão, disse Marcelo apontando para a perna de Valmir.
       — Entrem e tomem um chazinho para acalmar – disse o senhor – quanto ao seu amigo, vamos cuidar do ferimento.

E aí, o que achou da vida alheia?

A questão é que nos colocamos como padrão e olhamos para os outros através dessa lente. Será que ela não é uma trave? (Mateus 7.1-5). Jesus é o modelo para os que são dele, sendo assim, devemos distinguir o comportamento, da pessoa. Posso não concordar com o outro, mas não preciso rejeitá-lo por isso. Vale sempre lembrar que a função de julgar não é nossa e por isso somos péssimos nesse ofício. 

sábado, 31 de dezembro de 2016

O que você espera?




Por Vanessa Sene Cardoso

Nos últimos dias tenho lido várias mensagens desejando saúde, paz, alegria, sucesso, prosperidade, realizações no ano novo. Uma amiga recomenda substituir as promessas pela pressa em ser feliz. Outro afirma que não adianta apenas ter tudo novo, sem um coração novo. Um amigo decidiu não mais se “(es)forçar a participar ou promover grandes celebrações, mas comemorar as pequenas vitórias do dia a dia”. Há quem não dê a menor bola para a “virada do ano”, afinal é uma data como outra qualquer, ou seja, é só virar a folhinha do calendário; e, por falar nisso, é bom não esquecer de trocar o calendário também.

As mensagens são bonitas. Embora se repitam a cada ano, são válidas, e acharíamos estranho se não fossem enviadas, compartilhadas. Afinal, culturalmente ou tradicionalmente, mesmo que muitos insistam em ignorar, a virada do ano é um marco, não pela data em si, 1 de janeiro, poderia ser 4 de maio, 7 de julho, 13 de outubro... Precisamos desse marco simbólico, nem que seja para jogar o calendário antigo fora, desfrutar uma semana de férias coletivas no trabalho, substituir a agenda. Dê a si mesmo uma oportunidade de pensar em coisas novas, fazer planos, nem que seja arrumar aquela gaveta que, há séculos, permanece intacta. A sensação é tão boa! Se você não é idealista, seja realista, mas não se deixe vencer pelo pessimismo (se bem que o pessimismo crê na mudança, mesmo que para pior, uma pena!), menos ainda pela indiferença, esta sim uma inimiga a ser vencida. Que tal colocar como meta vencer a indiferença? Se esse não é o seu caso, faça planos! Mesmo que, ao final do próximo ano, eles não tenham sido executados. Não importa! Insista! Ou, então, mude!

Quero dizer ainda, que concordo com o meu amigo que mencionei acima, prefiro comemorar todos os dias as vitórias alcançadas; as tristezas... também prefiro sofrê-las no momento, para não acumular. Tenho procurado aplicar em minha vida a recomendação do meu grande amigo Jesus: “Não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio mal” (Mateus 6.34). Confesso que não é fácil!

Não deixe que a preocupação com o amanhã faça parte dos seus planos para o futuro. Permita que sua alma descanse em Deus que é o Criador e dono do tempo. Ele está no controle de tudo e seus planos são perfeitos. Se você está em dúvida quanto ao que esperar ou planejar para os dias que virão, peça direção ao Espírito Santo.

Eu não pretendia escrever nada neste último dia do ano, mas quem nunca se “rendeu” a um clichê?!

Feliz 2017!

“Agora vou fazer uma coisa nova, que logo vai acontecer, e, de repente, vocês a verão...” (Isaías 43.19 - NTLH).

sábado, 12 de novembro de 2016

Nada de esteira rolante



Por Vanessa Sene Cardoso

Quando você se depara com uma situação que lhe causa medo, como reage? É comum pedirmos para Deus tirar o nosso temor, e ele pode e faz isso, muitas vezes, instantaneamente. Penso que existe uma forma mais difícil, porém educativa, de lidar com essa condição da alma: enfrentar o que nos provoca medo. Quando nos dispomos a isso, logo ele desaparece. Esse, no entanto, é o X da questão. Enfrentar é como atravessar a porta sem saber o que tem do lado de dentro, (pior é o que imaginamos ter do lado de dentro, que nem sempre corresponde à realidade). Procurando o fio da meada encontramos o que precede o ato de enfrentar: a decisão de enfrentar. Não me refiro aqui a situações externas em que o medo funciona como um mecanismo de defesa ou proteção, como num assalto a mão armada, por exemplo.

Situações difíceis pelas quais já passamos e que nos causaram sofrimento; enfermidades; violência; perdas... Poderíamos enumerar vários fatores desencadeadores do medo. Entre tantos motivos, gostaria de destacar um que, se analisarmos bem, vamos perceber que pode ser a raiz de muitos outros: o desconhecido. Temos as nossas zonas de conforto. Pare e pense em uma delas. Vamos exercitar a imaginação:

Suponhamos que o que lhe causa medo seja mudar de emprego, algo que aguardou por tanto tempo. Finalmente a oportunidade aparece e você toma a decisão de enfrentar o desafio. A proposta de trabalho é boa, mas você não domina o serviço. No começo tudo é novo, os colegas lhe tratam com atenção, auxiliando em suas tarefas, o chefe pega leve nas cobranças e por aí afora. Mas depois de um tempo a “lua de mel” termina, tudo cai na rotina. E você se depara com as dificuldades: sente-se inseguro por não dominar as tarefas, tem que lidar com seus erros, começa a conhecer melhor os colegas, aparecem os primeiros sinais de conflitos. Um pensamento pode rondar a sua mente: “Demorei tanto para tomar coragem e mudar de emprego; deixei a minha zona de conforto, dei o primeiro passo, mas as coisas não fluíram como eu imaginava. Acho que tomei a decisão errada. Fui precipitado!”

Sair de uma condição confortável não é nada fácil. Damos um passo para fora da zona de conforto, e, muitas vezes, esperamos encontrar uma esteira rolante - afinal o mais difícil já foi feito - mas nos deparamos com uma escada. O fato é que subimos um degrau de cada vez, por isso é preciso paciência; a subida requer um pouco de esforço, o que, às vezes, provoca dor, por isso é preciso perseverança e foco; nem sempre enxergamos o que há lá em cima, por isso é preciso confiança; ao chegarmos ao topo, encontramos um degrau mais largo, uma espécie de “platô” (Ufa! Tempo de descanso!), mas descobrimos que logo vem outro lance de escada.

Podemos comparar essa escada ao crescimento. Deus quer que seus filhos amadureçam emocionalmente, nos relacionamentos, em todas as áreas da vida. Enfrentar os medos faz parte da nossa jornada rumo à maturidade. Como é bom saber que, em Cristo, temos capacidade para encarar toda e qualquer circunstância. O medo pode desaparecer de imediato, ou quando enfrentamos as situações, não importa a forma, e sim o propósito do nosso Pai.

Se você está passando por uma situação que lhe causa medo (ou não), agarre-se nesta verdade: No amor não existe medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo (1 João 4.18).

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

O algoz




Por Vanessa Sene Cardoso

Convido você a acompanhar a rotina de uma personagem fictícia, cujo nome é Horah. Tome fôlego e vamos lá!

Horah levanta às 6h30, vai para a cozinha preparar o café da manhã para o marido e os filhos. Enquanto a água ferve, acorda as crianças – elas vão despertando a “prestação” – o marido já está no banheiro se aprontando para o trabalho. Enquanto pai e filhos tomam café, é a vez de Horah se arrumar. Tudo pronto! O marido deixa as crianças na escola, e Horah, no serviço. Ela sai às 12h, pega o ônibus 12h05, vai para a escola buscar as crianças, segue para casa pra preparar o almoço. O marido chega às 13h, são apenas 20 minutos para a refeição, antes das duas da tarde Horah tem que deixar o marido no trabalho para ficar com o carro e dar andamento nas atividades e na rotina dos filhos: natação, futebol, inglês... Volta para casa quase cinco da tarde. Antes de buscar o marido no trabalho, passa no mercado, na padaria, e já está pensando no que vai fazer para o jantar e nas tarefas domésticas que a esperam no terceiro turno. Enquanto o marido ajuda com o jantar e acompanha as crianças nas tarefas da escola, Horah recolhe a roupa, coloca outras na máquina e olha para a pilha perto da tábua e do ferro de passar: – “Hoje não”! O telefone toca, Horah atende:

– Alô!
– Oi Horah, quem fala é a Prudência Remilda. Tudo bem?
– Oi amiga, quanto tempo?!
– Pois é, o tempo...
– Gostaria de marcar um horário para tomarmos um café e colocar o papo em dia. Quando você pode?
– Hum... Gostaria muito, mas estou na correria, acho que essa semana não vai dar. Uma pena! Vou me programar – Horah estava conversando com a Prudência, mas o pensamento estava na lista de coisas por fazer.
–Tudo bem. A gente se fala depois, então. Até mais!
–Tchau.

Depois de fazer tudo que estava programado - inclusive oração e leitura bíblica em família - e colocar as crianças para dormir, Horah e o marido sentam um pouco na frente da televisão e Z Z zzzz... Vencidos pelo cansaço! Ufa! Agora é só aguardar o despertador anunciando o começo de um novo dia.

Você se identificou com Horah? Talvez a sua realidade e rotina sejam bem diferentes, mas uma coisa é certa, todos estamos sob a opressão de um mesmo algoz: o tempo (pelo menos é o que pensamos!). Que tal dar uma pausa na leitura desse artigo para refletir e, quem sabe, descrever a sua rotina? Desafio você a pegar caneta e papel ou digitar tudo o que faz no dia, na semana. Como tem utilizado o tempo? Talvez você descubra que o seu algoz é outro.

Urgências, emergências, intercorrências, interrupções, falta de limites, excesso de ócio são alguns dos usurpadores do tempo. Por mais que se faça um planejamento, ninguém está livre deles. Mas não precisamos nos deixar dominar por esses intrusos.

Na era da tecnologia, da comunicação virtual em tempo real somos bombardeados pelo excesso de informações, o que, muitas vezes, prejudica a comunicação, provocando ruídos. Minha intenção não é transformar a tecnologia, as redes sociais em vilãs. Elas podem poupar nosso tempo ou roubá-lo. Depende de nós.

Você já deve ter ouvido a frase: “Se tiver que dar uma tarefa para alguém, procure uma pessoa que tenha muita coisa para fazer”. Pois quem tem “tempo de sobra” pode acabar caindo na tentação da procrastinação. O excesso de ocupação e a falta do que fazer não refletem o equilíbrio. Talvez você esteja pensando: “ela fala isso porque não conhece a minha rotina”.

Pode soar como um clichê, mas o fato é que o tempo é o mesmo para todos. A vida moderna é cheia de desafios, mas podemos recorrer ao Espírito Santo que nos ensina todas as coisas e ele pode nos ajudar a administrar o uso do tempo. Quais são as prioridades? Elas podem variar conforme o momento da sua vida. Abrir mão de alguma coisa agora, não significa fazer isso para sempre. Planejar é importante. Se a tomada de decisão for difícil, busque ajuda. Onde não há conselho fracassam os projetos, mas com os muitos conselheiros há bom êxito (Provérbios 15.22). Você que é filho de Deus recorra a ele.

Deus orienta os seus filhos por meio do apóstolo Paulo: Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, e sim como sábios, remindo o tempo, porque os dias são maus. Por esta razão, não vos torneis insensatos, mas procurai compreender qual a vontade do Senhor” (Efésios 5.15-17).

Quem é o seu algoz? Você consegue identificá-lo? Se pensar bem e for honesto consigo mesmo vai perceber que não é o tempo. Liberte-se!






quarta-feira, 7 de setembro de 2016

O dia a dia rende boas histórias...


        

Por Vanessa Sene Cardoso

Você acha o seu dia a dia monótono, sem graça? Se observá-lo de outra perspectiva, com uma lente de humor ou ironia, descobrirá que algumas interferências não previstas na rotina podem render boas histórias e diversão. Aliás, rir de si mesmo é uma boa prática.

Quero compartilhar uma história que não é minha, mas acompanhei de perto. A semana, aparentemente, desastrosa de uma amiga serviu de matéria-prima para essa crônica.


Sábado de manhã

– Vamos logo, filho. Temos que colocar a chuteira. Ah! Aqui o seu chocolate com leite e o pão. Está na hora.

Rafael tinha um compromisso muito importante, um jogo amistoso de futebol. Estava empolgadíssimo e preparado para a vitória.

Da arquibancada vinha a torcida dos pais e da irmã. Vai, Rafael!

Apesar do incentivo, o placar foi implacável: 1 x 0, 2 x 0, 3 x 0 ... 6 x 0. Mas a mãe não desistiu. Inspirada nas Olimpíadas - quando os brasileiros abraçaram os azarões dos Jogos - da arquibancada bradava: “Eu acredito, eu acredito...” Mas o empenho não inverteu o marcador. Resultado: frustração.
           
– “Não é justo, mãe. O time deles é mais velho. Os meninos tem 7 e 8 anos. Eu tenho 6” – lamentava Rafael, inconformado.
– “Filho, foi apenas um amistoso”. Assim a mãe tentava consolar o garoto, sem muito sucesso.
           
Minha amiga prosseguiu na sua jornada... Tudo vai dar certo.


Sábado à noite

Agora é a vez do maridão que foi participar de uma corrida. Todo paramentado seguiu para o local da prova. Ela e as crianças chegaram cedo para garantir um lugar perto da pista. E lá estavam grudados na grade, prontos para acompanhar cada detalhe. De repente vem alguém abrindo caminho, empurrando, pedindo passagem. Era um idoso com pinta de atleta, e a jovem namorada. Ah! Outro protagonista da cena foi o celular. Foto daqui, pose dali, selinho pra selfie...

– “Não acredito no que estou vendo!” - minha amiga nem arriscou transformar o pensamento em palavras.

O homem foi passando por todo mundo. Um verdadeiro arrastão, guardadas as devidas proporções. Seu alvo era pular a grade de proteção. Mas na escalada se deparou com um obstáculo, a mão do pequeno Rafael, que segurava com entusiasmo a grade na expectativa de ver o pai passar na pista de corrida. Lá se foi o homem... Mas sua garota ficou na torcida.

– “Moça, fala para seu namorado que é muito feio o que ele fez. Ele pisou em uma criança e nem se deu conta disso” – desabafou minha amiga. Rafael observava o diálogo com os olhos marejados por causa da dor.

O evento esportivo transcorreu dentro da normalidade. Quando já estavam indo embora, perceberam um tumulto. Um integrante do clube de corrida havia passado mal.

– “Mãe, é o homem que pisou na mão do Rafael” – afirmou Belinha – Deus me falou que é ele. Mas como não dava para ver, a mãe desconsiderou.

Mais tarde...

A vizinha da minha amiga, que também estava com a família na corrida, disse:

– “Menina, você não sabe da maior! Presenciamos uma morte depois que vocês foram embora. O homem que sentiu-se mal foi aquele que passou por nós para pular a grade de proteção”.

– “Eu não falei, mãe?!” – lembrou Belinha.

Minha amiga nem podia imaginar que o sábado começaria com um placar desfavorável e terminaria em morte.


Domingo de manhã

Dia de plantão no trabalho. Tendo que atender, simultaneamente, três cursos minha amiga se vê em apuros. Enquanto dava assistência em uma das salas de aula, as outras ainda aguardavam a instalação dos equipamentos. Enfim, para uma pessoa que preza pela organização e o bom atendimento, foi uma provação se deparar com as coisas fora do planejado.

O sangue italiano não respeitou “as leis de tráfego das veias”, tal a velocidade com que ele transitou em poucos segundos da cabeça aos pés, mas minha amiga se conteve. Que orgulho! Na porta da sala onde seria realizado o curso com maior público, enquanto recebia os participantes, observava: pessoas e fichas protocolares se misturavam. Já não dava para saber quem era quem. Burocracia x Acolhimento.

– “Qual a saída?” – foi a pergunta que dominou a mente de minha amiga, enquanto analisava a situação.

Aguarde. As coisas podem e vão melhorar! Tenha fé!


Segunda-feira de manhã no trabalho

– “...E assim foi meu fim de semana, meninas” – concluiu a exaustiva narrativa.

Assim como a ficção prepara surpresas para o leitor, a vida real também reserva o inesperado. A saga da minha amiga estava longe do fim.

Depois de vários dias tentando adquirir convite para um café da manhã com a participação de conceituado palestrante, já estava quase desistindo, pois foram muitos os desencontros, finalmente, obteve sucesso na empreitada. Parece simples, mas fui testemunha de quantas vezes ela tentou combinar com o organizador uma forma de pegar os convites. Nunca dava certo! Quase ficou sem o seu exemplar. Ufa! (Depois ela iria descobrir que poderia ter participado apenas da palestra e, ainda por cima, gratuitamente).

Tem comunicado que a gente recebe e não sabe do que se trata, principalmente, se somos organizados com nossa vida civil, financeira e por aí vai.

– “Como bloquearam a sua conta?” – questionou minha amiga sem entender o que o marido acabara de contar. “Pode ser o IPTU da minha mãe que está atrasado. Vou à prefeitura verificar” – concluiu.

Lá foi minha amiga tentar descobrir o que estava acontecendo. Depois de muita conversa, e da sorte de ter sido atendida por um servidor público que estava ali para “servir o público”mesmo, conseguiu descobrir a natureza daquela cobrança. Precisou consultar advogado para resolver uma pendência que nem era pendência de verdade. Como é duro pagar o que não se deve! Mas no fim tudo dá certo, se não deu certo é porque não chegou o fim.


Terça-feira
           
Uma trégua!!!!

     
Quarta-feira à tarde
           
Tudo combinado para a festa surpresa de uma amiga do trabalho.

– “Eu vou pegar o salgado e deixar aí por volta de 14h, corro para a prefeitura, e 16h volto para a festa, combinado?” – programou minha amiga.

É, a vida é uma caixinha de surpresas.

Em frente ao computador tentava se concentrar nos documentos que precisava imprimir. A filha pedindo ajuda para enviar uma mensagem no celular, o filho em volta distraindo a atenção.

Eis que surge a funcionária da casa anunciando o aparecimento de uma visita inesperada.

– “Para tudo. O que?! Um raaaaato?!”

Não sabendo o que fazer minha amiga pediu socorro ao marido. Sem se levantar do sofá, afinal eram os últimos capítulos do impeachment da presidente, disse para ela recorrer ao porteiro. Mas o funcionário não podia deixar o posto. Primeira alternativa: sem sucesso.

As crianças não descuidavam um minuto do intruso que andava com toda desenvoltura pelo quintal.

– “Já sei, vou chamar alguém para dedetizar ” – foi a segunda alternativa da minha amiga para resolver a situação. Quando descobriu o preço do serviço, desistiu.

A caçada continuava. E o rato sentindo-se o dono do pedaço... E sobe nas bicicletas, sobe no carro... Até que, com a ajuda de um vizinho, conseguiram encurralar o roedor e servir veneno para ele. Por hora o problema estava resolvido.

Mas a funcionária da minha amiga levantou uma lebre, que neste caso, era força de expressão, e não mais um visitante indesejado.

– “É melhor verificar o carro, pois uma vez entrou um rato em casa e roeu o fio da minha máquina de costura” – alertou a funcionária.

O marido da minha amiga desconsiderou essa possibilidade, até que precisou sair e quando virou a chave na ignição: “pif”. Nem sinal de partida. Mais um transtorno. Toca chamar a assistência. Pura coincidência. O problema nada tinha a ver com a excursão do rato pelo interior do carro.

Quinta-feira: Ressaca da semana. Sexta-feira: Ufa! Que maratona de emoções! Esperança de dias melhores...

...Com certeza eles virão... As circunstâncias, muitas vezes, são adversas, mas deixar-se guiar por elas ou não, é uma decisão. Você não tem controle, na maioria das vezes, e, muito provavelmente, não poderá mudá-las. A sua atitude diante delas, no entanto, pode fazer toda a diferença.

Um brinde a você, minha Amiga, com limão, gelo e o que mais a sua imaginação quiser acrescentar.

*Nomes substituídos